Preferência

tão aérea a forma como se criam preferências, desequilíbrios nas vontades. tão irónico sentir irracionalmente, sem querer, e saber que me rege a Segunda Lei da Termodinâmica: o mundo evolui inevitável e incompreensivelmente para o aumento da entropia. todo este caos térmico que chocalha dentro de mim (e me violenta!) é produto de uma lei. é matemática. 

quão natural foi dizer, Adoro cabelo loiro, no outro dia, quando só adoro cabelo loiro porque me lembra o teu. antes de ti, nunca achei cabelos claros diferentes dos outros. mas agora. como mudou o meu olhar.

é nestas pequenas espontaneidades que se revela, como que iluminada por um ténue feixe de luz, lá longe, a demência impensada do meu amor. qual raiz de cato, penetra na areia até à terra molhada que é a minha mente. e afundo-me com ela, cada vez mais consciente da minha descida sobre mim mesma, seca-se-me a garganta, abre-se-me a boca... mas nada se ouve, nada se bebe, nada se digere, nada se alcança que possa confortar com ela. desviam-se-me para ti os meus olhos desgovernados, como previsto por Maxwell; quando sei de mim, já te fitava há minutos. antes, tinha preferências definidas, Tem que ser uma pessoa alta, vincava. mas, agora, não tenho tipo, o meu tipo és tu. ditas-me. eu anoto, noto-te só a ti. chegas e o que antes não era passa a ser. adoro cabelos loiros. foste tu o motivo dessa preferência. viraste-me o vinil sem eu poder sequer alcançar o teu gira-discos. é desigual, é assustador. reconforta-me apenas a Segunda Lei da Termodinâmica, mesmo sendo tu a primeira preferência.

Autoria: cardo oriano