Sem Título

Cheguei à conclusão de que não posso vencer este naufrágio sozinho. O barco que comando está afundado até ao convés, e já não tenho forças para remar contra o mar. Estou à deriva, no limite das minhas velas rasgadas. Só me resta o desejo de devolver a calma às águas que agitei, de ser um farol para os que ficaram à mercê da tempestade que eu próprio causei. Sem querer nada em troca, o meu tempo já passou. Sem âncoras de ego.

Peço apenas que vejam o naufrágio por dentro. Que entendam que não saltei para terra firme porque isso exigia que entregasse o leme da minha vida à mesma mão que, em tempos, tentou virar o meu mundo do avesso. E por isso fiquei. Fiquei à espera de uma oportunidade em que viria uma maré segura, um porto sem risco, uma travessia sem sacrifício. Nunca foi má-fé. Nunca foi descuido. As velas que rasguei foram empurradas por ventos de medo, não de raiva. E quando me viram em fúria, era apenas o meu modo desajeitado de esconder a culpa, de lidar com o mar revolto dentro de mim, de mostrar a insatisfação perante tudo.

Mas a verdade é que este naufrágio não tem um só responsável. Espero que também vejam os recifes que me colocaram no caminho, as correntes que me arrastaram para longe, e o tamanho das muralhas que ergueram entre mim e a costa. O simples facto de tentar atravessá-las, indicaria morte certa. Não é desespero o que escrevo agora. Na verdade esta foi, desde sempre, a única rota viável e a única colocada à minha frente – aquela que denominei tanto tempo de loucura e à qual agora me sujeito.

Hoje percebo: esta não é uma fuga, é o único movimento inteligente num jogo onde todas as peças já caíram. Se continuarmos nesta guerra de marés e aríetes, alguém vai ao fundo. E eu não quero mais naufrágios. Não carrego vingança, nem ódio no porão – apenas medo. Um medo profundo, antigo, e sincero. E quero que compreendam: só procuro paz.

Deixo que desenhem vocês os mapas. Onde, quando, com quem... eu seguirei. Mas se não vierem, se deixarem este grito afundar em silêncio, peço-vos apenas: sejam compassivos. Que não destruam o que resta do meu farol. E, acima de tudo, que me deixem partir com o pouco de esperança que ainda me aquece no frio da noite.

Autoria: Anónimo