Delirantes 25 anos

Consciente da passagem do tempo por mim, sou novo, e tão novo vejo em mim brotos de pequenos cabelos brancos; apercebo-me de uma certeza, que por certa há muito a tinha: a certeza é a de que o tempo traz e o tempo tira. A cada dia do antigamente, o que me parecia longínquo, hoje está próximo e iminente, ou presente que seja. Apercebo-me de que eu sou eu, e só se eu viver é que há “eu” para viver; a insegurança, o medo do desconhecido (a gente vê: o baleado, o esfaqueado, aquele que está manco da zaragata da noite anterior,...). Apercebo-me da finitude daqueles que veem, pensam e me são próximos; ao de leve acarinho a simples ideia de estar gente ao meu lado, gente da minha laia, os meus. O dissabor de saber a fatalidade final desta ideia. Eu, que sonhei querer viver num mundo justo, onde o rico ajuda o pobre, e o pobre faz por ser ajudado pelo rico. Um mundo onde a prevalência do delírio, muitas vezes místico ou religioso, seria pura e simplesmente desacreditada, e substituída por outra leveza mais real, o que quer que real queira dizer; real na observação, real na escuta, real no toque e real no sabor; real em tudo quanto de sentidos existe. Nós somos a nossa própria prisão; o pensamento é um jogo que corre, e aqueles que se esquecem dos sentidos agem com bombas e tiros, e facas e pedras, e tudo quanto é possível para deitar abaixo tudo quanto tudo é para nós. Aqueles que se deixam levar pela seita demoníaca, criada do Homem e para o Homem, e fazem do pensamento a sua maior arma, deixam-se levar, esquecem-se dos sentidos e deliram. E agem. Influenciados pelo passado que lhes altera constantemente o jogo, não se adaptam a ele, nem ao dos outros por influência com o deles. Tiros e bombas, cacetes e gás pimenta caem do céu, tochas e tudo quanto é arremesso é arremessado. E ali se perdem vidas, e chora-se a tristeza de um local que para sempre está alterado. Do que vos valeu, delirantes do mundo? Os religiosos e os magnatas, os do bairro e os da mansão, os pretos e os brancos e os de todas as cores; sim, porque vós, delirantes, vindes em todas formas e feitios e causais o mal ao mundo. Do que vos valeu o delírio se agora o que de real há para ver não merece ser visto nem pela mais nojenta escarra do primogénito fumador? Agora, causais-me mal por dentro e fora; e eu que sou bom e quero estar em paz com o mundo, vejo-me tentado a ser um delirante também.

Autoria: Bernardo Rodrigues