Perdoei o Natal. Não sei ainda como ou porquê. Quiçá à força dessa redundância hilariante que embrulha todos os perdões: desejei o perdão. Secaram-se-me as lágrimas que me enturvavam os olhos, que me entortavam a alma, e, nesta vítrea limpidez, compreendi que a morte não se opõe à vida: legitima-a. Acima de tudo, concluí que não ofendo ninguém por continuar viva e, certamente, jamais ofenderia quem continuará sempre comigo.
Também eu já não me sinto ofendida. As luzes, o cacau quente, os pinheiros e o Wonderland Lisboa, as filhoses, o Sinatra, o barrete no gato, já nem quero incendiar os Armazéns do Chiado! Nada disto me insulta. É certo que tampouco me aconchega (a minha infância morreu de velhice), mas sinto-me pachorrenta face à alegria dos outros. E, se também essa alegria não for verdadeira, pelo menos andamos aqui todos a patrocinar a Colgate por quem sorri sem dentes – e, se o Natal for um presente que se oferece ao coração míope dos miúdos, apesar de tudo, ainda é Feliz e ainda é Natal. Respeite-se o regozijo alheio! Permita-se o tempo das crianças ofegantes, admita-se o tempo das cartas a um Pai que, tendo Maiúsculas de Coca-Cola, não é, menos do que O Outro, objeto de fés e de festas... Pronto, seja lá o tempo dos desejos, que, embora já não deseje nada, serei rainha à lareira se me derem um par de meias.
Agora, desculpem-me, mas preciso de terminar aqui a conversa, que o El Corte Inglés vai fechar e tenho uma prenda de última hora para arranjar.
Avó, o que vais querer este Natal?
Claro, Mon Chéri, isso já sabes que te dou sempre. Então e mais? Uma boina, tinta para o cabelo? Mais um par de ténis de corrida? Ai, ai, avó, minha malandreca, partiste a perna e nunca paras quieta. Não vestes o pijama até te deitares na cama. É o dia inteiro muito bicho carpinteiro, não admira que não durmas à noite... Hoje, compreendo-te bem. Se soubesses o quão parecida contigo me tornei. Haverias certamente de me ralhar, como tanto te ralhei, naquele tom muito sério de quem te pegava na mão para dançarmos o Somos Portugal na televisão.
Estou a divagar. Avó, vá, o que te posso dar? Uma rosa, pelo teu nome e pela cor das tuas roupas? Um terço, um pastorinho de Fátima? É uma maçada, isto de não te poder tocar, de ter de fingir que me ouves falar... Mas olha, hoje já não me entristece tanto que não me ouças. Sai tanto disparate desta boca...! Prefiro que me recordes pelas minhas promessas. Passaram-se cinco anos e já cumpri muitas delas. O pai também: sobretudo promessas que ele nunca fez a ninguém. Continuamos parecidos e amigos. No entanto, dizem-me que agora me pareço mais com a minha mãe, o que talvez apenas signifique que pareço “mais mulher” (ainda há quem acredite que as mulheres se medem aos palmos) e, no entanto, continuamos sempre às cabeçadas. E amigas.
Admito-te, avó, ainda não sou muito arrumada – especialmente aqui dentro, onde o coração me bate para que viva e a vida me bate para que sofra – que é um pleonasmo, já te explico o que isso significa. No entanto, quando aceitei que tinha de te carregar dentro de mim (à conta disso, agora gosto de levantar pesos), percebi que tinha de te proteger, meu anjinho da guarda, minha companhia, e dar seguimento ao teu rebuliço. Percebi que tinha de viver até à exaustão, levar-te a voar catorze vezes por ano, aos cruzeiros escandinavos e aos pescadores africanos e às sete mil maravilhas do mundo, que tu mereces tudo, avó, viveste tanto por todos e tão pouquinho por ti. Luto tanto para viver por duas que a vida me dói no corpo e, mesmo assim, insisto nesta coisa inflamatória de deitar fogo à água para manter o teu calor comigo enquanto nado, nado, nado, nado, nado, nado, nado, nado, nado...
Na última noite do teu corpo, disseste-nos para tirarmos o bacalhau do teu congelador. Dois dias depois, comemos a comida que nos fizeste e abrimos as prendas que nos deste, sem ti.
Hoje, faço eu o bacalhau. Que a comida é arma de fogo, mas sei que, quando as palavras se esgotam, o amor tem de nutrir. É o meu presente para ti.
Espero que gostes. Amo-te sempre, avó. Feliz Natal!
Autoria: Saudade Felícia