Chegámos à época mais bonita do ano: a época do bacalhau, do peru, do polvo (?), a época de descongelar a Mariah Carey e tirar o pó duma qualquer imitação de pinheiro que haja por casa, a época do astigmatismo ser mais aesthetic graças às luzinhas.
É, sem dúvida, uma altura muito bonita, o ar nas ruas parece diferente, o frio parece nem criar grandes arrepios, os sorrisos e abraços parecem sair com mais facilidade do que em qualquer outra altura do ano. No fundo, parece mais fácil viver no Natal. Quase não custa nada!
Ainda assim, tudo sai a um custo: o ar nas ruas nesta altura não é diferente do resto do ano — está igualmente poluído, sujo e cinzento; o frio é igual ao que será em janeiro e fevereiro, apesar de não parecer —, seja porque o calor humano ajuda a enganar o termóstato ou porque, de facto, o clima já não cria frios como antigamente. Os sorrisos e os abraços realmente saem com mais facilidade do que noutra altura do ano, não porque sejam eles que estão a hibernar nos outros 11 meses do ano, mas mais porque nós não lhe damos o uso devido e deixamo-los escondidos.
Não quer dizer que o Natal seja algo artificial — não o é ou, pelo menos lá no fundo, não o é e nunca será — mas criámos uma versão tão expurgatória para nos sentirmos melhor connosco próprios sobre as patetices que fazemos no resto do ano: aquele fenómeno compensatório de receber prendas e chocolates, encher as mesas dos melhores e mais variados pratos e sobremesas, decorar cada pedaço de rua com luzes e adereços que quase não deixam as ruelas serem elas próprias… É um mecanismo quase pavloviano de consumismo, opulência e sumptuosidade, em que já ninguém sabe bem qual o estímulo que desencadeou tudo.
Apesar de tudo, Natal é ainda lembrar que, entre quem recebe rios de prendas, há quem as receba em menores quantidades, mas com igual ou maior sentimento, que há quem não tenha as mesas recheadas do bom e do melhor, mas tenha ao seu lado aqueles que fazem qualquer prato encher a barriga, e que aqueles que fazem as nossas ruas serem o que são estarão lá nos dias a seguir ao Natal e são eles que tornam cada metro de rua mais bonito e vivo.
No entanto, há mesmo quem nada receba, quem nada possa partilhar e degustar, quem já não partilhe das mesmas ruas que nós. O Natal também é deles e também se faz com eles, com os que sofrem da guerra, da violência, da pobreza, da doença, da vulnerabilidade, do genocídio, da solidão, da tristeza, da desesperança, da saudade, da exaustão, da separação. O Natal também é deles e mesmo que nos esqueçamos deles ou só nos recordemos quando aparece um anúncio fatela na televisão, o Natal para eles muitas vezes não é uma altura em que parece mais fácil viver — antes pelo contrário.
Aos senhores que decidem e controlam, que pagam e cobram, que armam e matam, não faltarão as melhores mesas, com as melhores refeições, em casas cheias de gente, com prendas, chocolates, alegria, sorrisos e abraços. Aos outros, sobrará aquilo que ficar e eles deixarem para cada um, se quiserem que seja mesmo Natal. A nós, teremos sempre mais para nós e para os outros quando, ao celebrar a alegria e magia do Natal, o façamos juntos, com todos, e nos lembremos que o espírito do Natal deve mesmo estender-se ao ano todo e não apenas “quando o Homem quiser”...
Autoria: Simão Pedro Espinho