A casa tem dois buracos.
Ei-la, a casa de dois buracos.
Não há porta, não há janelas.
É uma casa sem nada.
A casa tem dois buracos.
Ei-la, repleta de cacos.
Seus solavancos não são escadas,
As paredes não têm bocados.
A casa tendo buracos
Enleia-se resignada
A mesa ausente
A cadeira desocupada.
Acaso tendo só dois buracos
Em vez de demolida
Ergue-se a casa vazia
Cuja história não está escrita.
Mexeram-se os buracos
Uma barraca de barracos
Deitaram-se nos cacos
Desfizeram-nos em porcelana.
Levantam-se os gémeos buracos
Com azulejos cor de mar e céu
Fechados agora estavam
Sobre eles abriu-se o teto.
A casa tem um buraco
Aquele que lhe dá o céu
Abrir-se-á a casa
Pondo as nuvens como um véu.
Casada está a casa
Fez-se à estrada com afinco
Os buracos lá ficaram
São agora vizinhos.
Tapados os buracos
Nos seus azulejos dançam ondas
Canta o galo os bons dias
Acorda o Sol da sua cama nos montes.
Cessaram-se os buracos.
São agora algo novo.
O que antes lhes caía no vazio
Está-lhes salvaguardado no estômago.
Dançantes os buracos
Construíram uma nova casa
Caiu-lhes o martelo em cima
Estardalharam-se em cacos.
De novo buracos
Fecharam-se em bocados
Ei-la como reza a história:
A casa tem dois buracos.
Autoria: Anónimo