À lareira

Quatro camadas de roupas e meias grossas, mas a minha alma arde pela cadeira baixa em frente à lareira, aquela que ladeia o lugar da minha avó.
Todos sabem que um par de cadeiras, uma lareira e uma avó constituem a mais eficaz das máquinas do tempo, cujo único entrave é limitar-se ao passado. Sento-me e aparento estar de cócoras, viajando aos momentos em que, sentada neste mesmo lugar, media menos de um metro e as minhas pernas pendiam, enquanto a minha avó me prendia a franja com um gancho rosa choque.
Entre crepitações e o chispar intermitente, escuto através dela histórias de memórias que sussurram nas paredes:
De homens que viveram riquíssimos, mas nunca em dinheiro…
De mulheres que nasceram cifóticas para acudir aos filhos pequenos, alimentar as galinhas e colher os cereais...
De mortes trágicas e rumores cruéis…
Da mais bela história de amor proibido que culmina no poço da aldeia. Apenas indigna de Camilo Castelo Branco por ter um final feliz… Não entro em mais detalhes, pois a minha avó assoma-se agora ao fogo que ameaçava fugir. É de conhecimento geral que a lareira é essencial para o funcionamento desta máquina do tempo!
Todas estas histórias preenchem páginas infindáveis das vidas que levaram à minha. As minhas, por agora, estão em branco. Espero que chegue o dia que me canse de tanto as preencher. Certamente, nesse dia, terei o privilégio de as contar a uma pequena plateia, em frente a outra efémera lareira.

Autoria: Beatriz Cartó