Esquizoinfernia

Estou sozinho em casa com eles todos. Sou cheio de amigos, simpaticomimético e de modesta simpatia. Eles vivem dentro (fundo), paralelogramamente, tenebrosos, escabrosos. Saem-me das raízes dos cabelos como chupa-chupas, pop, pop, pop, lollipopping, escandalosos. Sou estátua num circo, estão todos a rir-se de mim e rodopiam-me, repudiam-me e tamborilam-me como uma pandeireta, percussão cardíaca, pá, pá, pá, tun, tun, tun. Estou todo aceso, não tenho acesso. Falam esperanto, língua universal que me é sempre estrangeira, que me envenena as papilas gustativas, que amarga inveja, são todos estrangeiros do pestilento país de Napoleão! Não são franceses nem corsas corteses, não, não, são pequeneses que se agigantam sobre mim, ai de mim, fui proibido de mim mesmo. 

Saudadinhas do homem que a minha mãe pariu! Recordo o meu berço, mas não sei onde nasci, porque morri-me todo, todo eu, nada em mim é meu, não sinto, não digo, não ouço nada pois escuto tudo, sempre, em todos os lugares, como uma febre que o pano molhado não baixa. Gargalha-se-me a núbia garganta, faraónica como um gato triste que não mia nem pia, que então se ria… engulo um Nilo de baba e ranho, injeto-me de choro. 

Faço fantasias de Carnaval com este sorriso de argila, vestígio polido dessa fatiota às bolinhas que me despe aos olhos de todos. Minto e não consinto, vou num carro sem cinto, vos rogo que creiam: não sou ridículo, apenas nasci num mundo onde não posso viver. No póstumo terraço, saibam beber-me de um trago pelo gargalo, que eu cá me engarrafei mais do que o Deus-Baco.

Autoria: Palimpsesto Entrevozes