Conheci O Mentiroso no Hospital de São José. Estava no semestre de Medicina Interna do meu terceiro ano, e a tutora encarregou-nos de lhe colher história. Não tomem o cognome que eu e a minha colega (hoje querida amiga) lhe demos como injúria. Na verdade, surgiu nos por pura admiração à insistência do homem em ocultar toda e qualquer informação – relevante ou irrelevante – que procurássemos apurar. Não era hostil, nem parecia particularmente incomodado com a nossa presença. Nem sequer era muito defensivo nas breves respostas que arranhava com a sua voz gasta pelo tempo e pelo tabaco. Só não era exato. Esquivava-se como um pugilista bem treinado. Perguntei-me, na altura, que combates e quantos teria ele travado ao longo da vida para que o seu condicionamento estivesse ainda tão presente. Pelo que disse, tinha à data os seus 65 anos. A colheita demorou dias, graças aos vários motivos que de forma cordial nos oferecia para se ausentar quando encetávamos as nossas investidas ao seu quarto. Isto quando tínhamos a sorte de lá o encontrar. No entanto, durante a semana que passou connosco, cruzava-me invariavelmente com ele na saída do serviço, à hora do almoço. A fumar o seu cigarrinho. E nesses momentos via na sua cara cansada um sorriso satisfeito e um olhar como um suspiro – de alívio ou de prazer, de ambos, quem sabe? – e tinha a distinta sensação de que era assim que ele gostava de estar. Com o seu robe, a apanhar o sol que bate na frente Sul do Hospital àquela hora. A fumar o seu, sem que ninguém lhe perguntasse rigorosamente nada. Acenava-lhe com a cabeça. No último dia, acenou-me de volta. Soube perfeitamente que o que acabámos por conseguir desenterrar não foi da missa a metade. Nunca mais soube dele.
Conheci O Treinador no Hospital Curry Cabral. Estava no semestre de Especialidades Médicas do meu quarto ano, a fazer uma semana de Infecciologia. Nesse estágio não tive par. Era parado, o internamento teve os mesmos doentes toda a semana e eu colhi a minha história logo no primeiro dia. Não podia estar em todas as consultas, porque muitas serviam pessoas que carregavam a sua doença – um simples vírus – como se fosse uma chaga aberta no sítio onde na verdade estavam as feições de um filho, de uma mãe, de um amigo, de um amor. Não queriam mostrá-la mais do que o estritamente necessário. Por isso, acabava por sair várias vezes ao longo da manhã para os jardins que cercam os pavilhões do Hospital. Fumava o meu cigarrinho. Numa dessas manhãs, fiquei sem lume. Decidi pedi-lo a um senhor que fumava o seu no banco à frente do que eu tinha escolhido. Usava fato de treino, a calça e o casaco a fazer pã-dã, aberto no topo a mostrar a manga cava branca e o fio de prata, grosso. O cabelo, lambido com gel, era preto a dar até atrás da orelha e o efeito final parecia-me de brilhantina como no antigamente. Na verdade, achei que lhe assentava bem. Talvez por ter reconhecido no seu figurino, no seu estar e no falar, uma familiaridade especial. Deu-me lume, e como quase sempre quando há dois fumadores, nasceu uma conversa. Contou-me que não gostava nada de vir ao Hospital, porque a Polícia já lhe tinha armado uma cilada. Precisava das suas injeções e pareceu-lhe de má fé que se tivessem disso aproveitado para tentar dar seguimento a algumas negociatas que gerira em tempos. Também me pareceu. Contei-lhe sobre um acidente que tive quando combatia. Contou-me que cresceu a combater, e que agora treinava os putos do seu bairro. Eventualmente, os cigarros acabaram. Eu voltei ao meu estágio e ele, imagino, ao combate. Nunca mais soube dele.
Conheci A Princesa no Hospital Dona Estefânia. Estava a fazer a semana de cirurgia pediátrica da rotação de Pediatria do meu quinto ano. Mais uma vez desemparelhada, acompanhava numa dada manhã as consultas pré-operatórias de Anestesia. Ela entrou, tímida, escoltada por três figuras que a cercavam. No pai, vi de imediato um misto de frustração, desespero, e uma contenção que duvido alguma vez conseguir alcançar na minha vida. Na mãe, vi duas coisas que não se misturavam de todo, alternavam entre si com uma frequência estonteante: culpa profunda e aquele nervoso miudinho de quem quer agradar – ou talvez não desagradar – de cada vez que olhava para o terceiro elemento. Esse homem entrou relaxado. Com a sobranceria de quem sabia não ir descobrir, decidir, sequer pensar algo novo. O seu guião estava escrito e impresso, e ditaria o resultado final de qualquer conversa que fosse tida naquela meia-hora. Todos se sentaram à exceção do pai, que ficou de pé, atrás. Disse que à falta de mais cadeiras preferia não ficar sentado na maca. Eu não acredito que ele se tivesse aguentado sentado. Dava pequenos passos e apertava com força uma mão na outra atrás das costas. Enquanto o homem do guião o folheava, detalhando as várias incompatibilidades entre qualquer cirurgia e as crenças que partilhava com a mãe da menina, apanhei os olhos dela com os meus. Eram doces. No primeiro momento, acho que vislumbrei neles quase o todo da sua tristeza. Ela também já sabia. Não iam deixar os Doutores transformar a prisão que era o seu tronco numa casa confortável para ela viver. A curvatura cruel tornava as suas respirações superficiais e injustas. Enquanto os nossos olhos estiveram ligados tentei que ela visse nos meus uma coisa diferente das que tinha já tido de enfrentar naquele dia. Quis que ela visse que eu a estava a ver, Princesa, fechada na torre de marfim em que nascera. Quis que ela visse que, se vivêssemos noutro reino e pudéssemos, eu preferia passar aquela meia hora a falar com ela sobre a princesa e não sobre a torre. Não sei se foi o que viu, mas sorriu me. Devagarinho. Desejei com todas as minhas forças que algum milagre verdadeiro lhe fosse concedido. Que, o mais rapidamente possível, lhe fosse finalmente garantido o direito de respirar fundo. De suspirar. Ela merece-o mais que qualquer outra pessoa que já conheci. Nunca mais soube dela.
De tempos a tempos, penso neles. E penso noutros tantos.
-- Não sei se alguma vez voltarei a saber de vocês. Mas onde quer que estejam, espero que a vida vos deixe estar bem. Um abraço, Pessoal.
Autoria: Mariana Cardona, 14 de Janeiro de 2026

