Olha como és bela nesta fotografia.
Que lindo o ímpeto bronze ante
uma cortina que desce lentamente
perpetuando a certeza do teu corpo.
Alguém que te não conhecesse na altura
talvez não te consiga distinguir na multidão,
mas que nítida esta ausência de linhas
te desenha como eras realmente.
Olha a rua onde vivemos florida a sépia
de rostos que há muito não lá estão.
Vermelho que aflora à boca do aço,
punhos cerrados que se projetam
muito além dos limites da lente —
Arte e movimento em comunhão.
Não poderias ter sabido que até nesse momento
começavam a surgir algures em ti
os primeiros erros de replicação.
E tantos anos que fui feliz, inocente
ao descontrolo que se gerava no teu âmago.
Já há muito o tumor te corroía quando
apareceu a letargia, a dor, a carne raquítica.
Estavas já tão gasta e via-te decair,
deixei doutores embutir-te de tantas curas nocivas
e por pudor nada dizia.
Afastei-me. Quis guardar-te como esta fotografia
onde nunca morrerias e eu seria sempre criança.
Não era assim que queria lembrar-te,
afogada em tormentas químicas
que te diziam boa esperança.
Quando sequer ousei imaginar a tua morte
ias rouca em fúria — esperneavas.
Não neste quarto asséptico,
muda, imóvel, longe da rua,
de tudo o que foste, tudo o que amavas.
Voltei. Sentes a minha presença?
Bem sei que será tarde,
não falei quando podia e falar é já em vão,
mas digo-te apenas, agora que partes —
A primavera que brotou da tua arma,
tenho-a cravada na mão.
Autoria: Miguel