Conheci O Estrangeiro no Hospital de São Francisco Xavier. Estava no estágio de Pediatria do meu quinto ano. Dizer que o conheci poderá ser um excesso, não chegámos a falar, mas conheci pelo menos aquele momento da sua vida. Era um rapaz novo, teria os seus 15 anos. Tinha vindo para Portugal com um tio, que ficou doente (ou isso se dizia pelo Serviço) e regressou à terra natal. O rapaz ficou sozinho. Não tenho a certeza de qual teria sido o motivo da sua vinda para o Hospital, não estava doente. Tendo entrado, não saiu mais no período em que lá estive eu. De porta trancada, esperava a “resolução do seu processo”. Pensei na altura em quem poderia olhar para ele e ver um processo passível de resolução, pelo menos pelos poderes terrenos de uns quantos indivíduos ligados por laços laxos à causa Humana. Via-o pela janela transparente da sua porta intransponível. Muitas vezes, sentado na sua cama, com os braços escanzelados sobre os joelhos e a cabeça entre as mãos. Não precisei de ver através dos seus cabelos negros para saber que chorava. Muitas mais vezes, olhando pela outra janela do seu quarto, a que dava para o ar à frente do segundo piso. Trancada também. As Enfermeiras – principais encarregadas da sua guarda e cuidados – enchiam o peito antes de entrar para lhe levar as refeições, preparando-se para o ritual do confronto. Não cheguei a ver qualquer resolução, nem qualquer processo. Nunca mais soube dele.
Conheci O Bala no Hospital Dona Estefânia. Estava na semana de cirurgia pediátrica do estágio de Pediatria do meu quinto ano. Passei essa manhã toda no bloco operatório. Ele entrou para a sala na maca, quase sentado de tão levantada que trazia a cabeça. Olhava em sua volta, ansioso. As Enfermeiras já me tinham contado o que se passava: ele precisava de um “desbridamento”, que é o que se chama a desfazer umas fitas adesivas que se formam entre as vísceras quando já se andou a remexer muito lá dentro. Como tudo o que existe dentro de nós, elas tentam proteger-se. Nem sempre da melhor forma, essas proteções geram depois outros problemas. Mas são as que conseguimos arranjar sozinhos. O porquê de ele já ter sido tão remexido é que me surpreendeu. Na sua pequena infância fora atingido por uma bala perdida, que no seu trajeto equivocado lhe rasgara quase tudo o que faz um ser humano. Ao longo dos anos foram-lhe tentando coser esse quase tudo o melhor possível. Nessa manhã já tinha 16 anos. Mas vi na camada de água que trazia à frente dos olhos um menino assustado que já não sabia o que era ter a sua barriga só para si. Pediu, choroso, à Anestesista que não o adormecesse. “Não vou acordar outra vez” — dizia. Ela riu-se, disse-lhe que se ele era lutador (e era), estava habituado a muito mais risco em qualquer combate do que aquele que corria na sua sala. Adormecia e acordava gente todos os dias. Percebi-a a ela e percebi-o a ele. Sei o que é preferir escolher o meu próprio risco, enfrentá-lo pelas minhas próprias mãos sem que outros o tomem para si. Também sei o que é perder para ele. Enquanto falava, a Doutora deu-lhe a poção mágica sem que ele se apercebesse, já que esperava anestesia pela máscara e não pela veia. Infelizmente tive de sair antes do fim, tinha aulas na Faculdade da parte da tarde. Desejei-lhe um bom acordar, uma barriga livre, que só pudesse ser atingida de novo por quem ele escolhesse. Nunca mais soube dele.
Autoria: Mariana Cardona