Hoje, sei que se me esgotaram as palavras do excesso em que foram certas.
E gero-me enfim, cravos sobre,
no vil sonho de uns lábios perto,
esses que mas parcas renunciam, de um amor pobre,
o verso despido, mas não aberto.
Muda me fere a mísera boca,
da rubra égide em dolo ungida,
a diluta Vénus que me do seio evoca
das aias palmas a prece erguida
ao crucifixo este que me heril sufocas
e que, mais não sendo, és vida.
Sou-te, enfim...
A esta promessa que se nos evola em tempo de há de,
Ao hino que nos fica de uma flor puída.
E, então, o páramo vaio desta verdade,
desta oblata que sou que se retira
deste curso do dobro em ser metade,
desta voz que, por inteira, da paixão é, e da despedida.
(E agora quantos, a vós o pergunto,
quantos ouvir logram aquilo que esquecer não podem?)
Pois me aqui gero, cravos sobre,
Da jura desprovido a que me incessantemente fodem
De narciso as miragens em diva face da razão:
Se isto é a verdade, não há que a palavra maior castigo.
Se aqui findamos, eu e quem?, não há que a ignorância maior bênção.
Autoria: Anónimo
A mente somente
mente a quem só se sente,
a quem só se prende
a ser quente e indolente.
A infinita ramificação da vida,
todavia tão finita p’ra tua finitude,
que, ao fim do dia, tudo é só solitude.
Nada temas,
nada rendas,
devora-a, voraz, até à espinha.
Meu amor,
meu pequeno amor:
a colmeia não é de mel, nem de açúcar é a bondade:
não sejas menos livre do que a tua vontade.
Meu amor,
meu maior amor,
que nunca te digam o que ver e o que cegar.
Tens sede no olhar,
e lágrimas no rosto.
Com um beijo de boa noite,
mordo os lábios à tua dor.
Autoria: Diana Oliveira
Chuva de meteoros
Tentei mesmo. Tentei esquecer-te.
Nunca antes lembrei tanto como nesse dia.
Nunca antes senti tão vividamente, revivo
Cada memória,
Cada abraço,
Cada palavra,
Cada momento.
Vejo-te agora nas estrelas que ambas olhamos, distantes.
E tentei fechar os olhos, mas então senti.
Senti, sonhei talvez, o calor do teu toque na minha pele gelada.
Doce, doloroso sonho.
Não sei se alguma vez saberás que esperei. Esperei por ti. Ainda espero.
Acabe o mundo amanhã,
Mas dê-me esta noite, nesta chuva de meteoros, que sussurra:
Estou aqui.
Autoria: Alice Vieira
Flores de parede
Arrogância
És os nardos gordos que apagam o sol
Hortênsia que seca o solo
Do qual te achas artista
Tu a hera que tudo toca
Que se espalha detrás da vista
Abraçando a nossa vida
Enquanto tudo sufoca
Mas nesta terra, a ti prometida
Esqueces a passagem perniciosa
De uma vida no mesmo vaso
Espinhos da mesma rosa
E eu, agora, sou flor de parede
Talvez nem isso
Talvez seja o musgo, do qual se alimentam
Ou os líquenes, que partem as pedras da vossa vida
Mas quando fecharem os olhos
E fecharem as vossas pétalas de sangue raiadas
Não se esqueçam onde estão plantadas as vossas raízes
Autoria: Pedro Sousa
Patos Bravos
Febril, em lume, determinado
ardia em frémitas batidas
a fornada no peito destemida
deste bruto macho magoado.
Vinha de bico em alto,
peito inchado e inflamado…
Fora-se-lhe o ninho violado
e os ovos roubados de assalto.
Foge, indigesto, do lago formado
e pisa o calor do asfalto
No pequeno instante sustido
em que se dá desencontrado
Ascende-lhe a queima do contacto
dentre torres, motores, mordido
36 vezes batem as suas asas
De cada vez se reencontram
as ondas que luzem à conta
o brilho d’ouro das aladas
E parte em voo inquisitivo,
esse desenamorado pato bravo.
Autoria: Iara Sofia
Olá, precisas de alguma coisa?
Olá, estou aqui!
Olha para mim, eu consegui
Precisas de falar? Queres que ouça?
Eu? Não, não, não…
As falhas que tenho
Nunca as irás ver
Porque se há coisa que aprendi no sitio de onde venho
Não…
É que a vida não teria que ser vivida assim
Agradar os que te rodeiam não devia ser um fardo mas um privilégio
Uma angustia mas uma alegria
Um constante sufoco, mas uma doce harmonia
Quero estar em todo o lado e não estou em lado nenhum
Quero chegar a toda a gente
Mas amigos não tenho nenhum
Faço o que esperam de mim
e… é suposto gostar de toda a gente.
Às vezes só gostava de me vestir de mim própria
Se não é natural e o teu coração está no certo local
Então estás a ir bem, respira, serra os punhos e sorri
O mundo é teu também
Autoria: Vasco Lança
As pessoas acham que sei escrever poemas
Nem desconfiam do pouco que sei
e que cada dia é uma dúvida constante no caminho que tracei
Mas, que diferença faz, se aquilo que escrevo não encontra a consistência do coração de quem me lê?
Mesmo assim, pedem mais poemas, novas quadras, outras rimas
Rimas que me esgotam, versos que me sugam, que me esvaziam o caminho e me obrigam a olhar o que deixei para trás,
porque de escrever poemas, eu sei que não sou capaz.
Noutra vida sei bem os poemas que escrevi
Sonhava-os desde sempre
Embora não fosse compreendido pela minha gente
Frases curtas, mas rima presente
O mesmo soneto de sempre
Servido numa xícara velha
Que conta a minha história, a minha aldeia.
Vai, voa alto, sê enorme
Era o que me repetiam sem fim
Mas porque haveria eu de querer explorar o mundo,
se o meu mundo esteve sempre aqui?
Autoria: Raquel Julião
Falo de mim na quarta e na quinta pessoa:
o mais distante possível.
Calo o indizível, digo o que minto,
e, nesse mutismo, nunca estou comigo.
Vivo-me à paisana,
e, de sentinela, cai-me a persiana
no desamparapeito da janela.
Tanto dito por não dito dei,
tanto defeito por desfeito,
e, nest’asco em que me engasgo
cuspo farpas d'azedume gasto
p'la vida que bebi dum copo de plástico…
Ó, peito sem batida, coração da minha mentira!
Há neste mundo alguém que conheça a Elvira?
Fiz-me a mínima dízima de mim,
ínfima sementinha.
Não serei mais do que flor:
no odor e na altura,
serei da natura o langor
que desnutre esta doçura.
Serei poço de palavras encardidas,
embebidas em trevas empedernidas
dum trovão que nem a noite ilumina.
Ó, voz sem lugar, silêncio secular!
Há neste mundo alguém que conheça a Pilar?
Dispo-me da minha vida,
lira que relincha de tão fria,
e sem que infira o fim desta dita,
defiro-a à sempiterna hipotermia.
Autoria: Diana Oliveira
Bom dia!
O desenfreio voltou à ribalta
ponho agora tudo em causa
O que sou, sei e criei até hoje
Mera fatalidade de uma vida
em que não existe cláusula
Menti-me mentindo-me mentindo-te
de me mentires de eu te mentir
e nessa mentira
percebi que não existe saída
Sou máquina de escrita
que se auto-dita
Quebro as regras da gramática
para ser breve a lógica instinta
da sede pela partida
Em que não hei de pensar?
Se é isso que em tudo desejo
Minto-me novamente…
São longos os segundos em
que recolho o pensamento.
Quiçá me solte a corrente
prudente neste alento e fique
escondido, bem aqui dentro!
Fiz de mim tudo o que quis ser
para poder ao mundo pertencer
Hoje precisamente por não pertencer,
Pertenço-lhe.
Que a criação que (des)faço
seja a mentira mais honesta que espalho.
Se desencontram duas faces
e se olham assim, além das fáscias fácies.
Miram noutro de si universal vazio,
e a Certeza que se evoca dele.
Dirige-se orquestral confluente
e veste-se ao raiar a louca pele.
Além das desavenças daninhas,
das rosas escolhidas aquém expectativas
Atrás do paraíso de floresta
que nos é da Morte concebida
(A Verdade está onde cremos)
E além estamos.
Autoria: Iara Sofia

