Entrevista clínica

“Não tenho frio.
Se ficar com frio aproximo-nos do Sol.”
Quem o diz é A., esquizofrénico.
Acredita que controla o clima.
“Acredito não, controlo!”
Insurge-se se se usa a palavra acredita,
torna-se agressivo.
É inverno e A. usa apenas o
pijama hospitalar, recusa vestir o robe.
Voltou agora do pátio ao internamento para a entrevista.
Não parece ter frio, de facto.
A. sai.

“Piorou imenso coitado.”
(Esta frase é dita em tom de lamento jocoso.)
“Aproxima-nos do Sol… era bom se pudéssemos controlar
o mundo como queremos.”
“Pois, não funciona assim.”

Aumentam-se dosagens.
Em breve estará tratado deste delírio de poder
interferir em coisas para além das suas capacidades.
Coisas que não lhe dizem respeito. Terá de aprender
a aceitar a ordem natural das coisas.

Os médicos saem para o almoço, pensam ainda
na frase: Aproximo-nos do Sol.
Lá fora faz frio.
O inverno prolonga-se. Parece
prolongar-se cada vez mais.
É cada vez mais difícil aguentar este frio, mas
será primavera não tarda; abriguemo-nos
mais um pouco, só mais um pouco. Mais
camadas, mais camadas…. E esperemos
que ela venha, ela virá, sempre veio,
terá de vir, disseram-nos
que vinha, com certeza que
virá.

Autoria: Miguel