Edições Especiais

Poemas sobre a Mentira — Sarau XXXII

Hoje, sei que se me esgotaram as palavras do excesso em que foram certas.E gero-me enfim, cravos sobre,no vil sonho de uns lábios perto,esses que mas parcas renunciam, de um amor pobre,o verso despido, mas não aberto.Muda me fere a mísera boca,da rubra égide em dolo ungida,a diluta Vénus que me do seio evocadas aias…

Ethel Cain, LAV 9/11/2025

Primeiro a negrura,necessária para o contraste.Depois uma arte que nelase propaga madurapreenchendo firmamento vazio.E uma mão, a minha, procurandono alto o som e a formaque se tornam reais porque escutoe se modificam em mim.Talvez deixando-me transfixar ressoandoesta figura que reverbera não como som,não como corpo,mas tessitura de luz,me possa transfigurar não somentereflexo da forma, mas…

Os Idiotas

Que idiotas são os sonhosPalermas, estúpidos, ignorantesOusados, rebeldes e fanfarrõesJulgam ter o mundo na ponta de um dedoou na palma duma imaginaçãoChicos Espertos e Zés NinguémQue criam mundos, histórias, poetasSem mapas, sem letras, sem alma Aos que sonham, boa viagemAos que não sonham, os meus pêsames. Autoria: Pê Assis

Nos teus olhos escrever o sonho

Nos teus olhos escrever o sonho Com que me guio no alto mar ondulante.Sou náufrago nos teus lábios tortuososPirata de sentimentos alheios.Na tua pele desenho riosAfluentes do meu sentir.Da tua língua emanam fiosCom que teço meu viver.Tuas asas de imaginação pereneSão o castelo do meu futuro,Que de areia em granito se tornamEm palavras murmuradas ao…

Pessoal vol.2

Conheci O Estrangeiro no Hospital de São Francisco Xavier. Estava no estágio de Pediatria do meu quinto ano. Dizer que o conheci poderá ser um excesso, não chegámos a falar, mas conheci pelo menos aquele momento da sua vida. Era um rapaz novo, teria os seus 15 anos. Tinha vindo para Portugal com um tio,…

Pretos e espessos

Pretos e espessos são os fiosQue da minha mente emergemEferências sonhadoras, singelasOs sonhos depressa se esquecemOxalá os fios não se olvidem como elasNegra é a pele, rubros são os olhosSó as lágrimas de cor carecemNem um “eu” tem controlo de mimNem os pentes me obedecemSe eu pedir perdãoOs fios abrandam comigo?Se eu pedir perdãoEle entrança-se…

Dia da Mulher: por Palavras

Dizia assim um ele para uma elaOh coitadinha da meninaNão pode tudo o que queria :(Mas pode sempre ficar calada :)Ou cortar o cabelo, empoderadaJá percebemos que aí está.(O que quer? Falta de chá!)Vamos, vá brincar lá para foraFalta pouco para a sua horaOh calma, que ela não vai(Querem ver que é filha do pai)Óculos…

O sono do elefante

No pátio antigo, a glória ardente,Passa em silêncio, memória lenta,Onde gigantes, de olhar valente,São já imagens que o tempo inventa.Salas cheias, de vozes ecoantes,Erguem ao céu risos triunfais,Sonhos grandes, passos de gigantes,Que o vento leva, não voltam mais.Entre amigos, tudo era infinito,No auge eterno de uma ilusão,Mas tudo é pó, breve e restrito,Que o tempo…

Elegia

Olha como és bela nesta fotografia.Que lindo o ímpeto bronze anteuma cortina que desce lentamenteperpetuando a certeza do teu corpo.Alguém que te não conhecesse na alturatalvez não te consiga distinguir na multidão,mas que nítida esta ausência de linhaste desenha como eras realmente.Olha a rua onde vivemos florida a sépiade rostos que há muito não lá…

Pessoal

Conheci O Mentiroso no Hospital de São José. Estava no semestre de Medicina Interna do meu terceiro ano, e a tutora encarregou-nos de lhe colher história. Não tomem o cognome que eu e a minha colega (hoje querida amiga) lhe demos como injúria. Na verdade, surgiu nos por pura admiração à insistência do homem em…

Esquizoinfernia

Estou sozinho em casa com eles todos. Sou cheio de amigos, simpaticomimético e de modesta simpatia. Eles vivem dentro (fundo), paralelogramamente, tenebrosos, escabrosos. Saem-me das raízes dos cabelos como chupa-chupas, pop, pop, pop, lollipopping, escandalosos. Sou estátua num circo, estão todos a rir-se de mim e rodopiam-me, repudiam-me e tamborilam-me como uma pandeireta, percussão cardíaca,…

A Cara do Amor

Sabes que quero para ti tudo o que sonhas alcançarContigo fui feliz, mais do que podes imaginarMasNão é por estar partido que o coração paraVais voltar a encontrar o amor,Só não serei eu a sua caraSabes,A vida nem sempre anda para a frenteTalvez nos tenhamos encontradoPor estarmos ambos perdidosNo mesmo mar de gente…Talvez tenhamos parado…

Balada do Sr. Orlando

“Sinto-me sujo, tomo vinte banhos por dia e sinto-me sujo”. Dizia sempre o impecavelmente asseado Sr. Orlando. Afogado num fervor de Sísifo tentava lavar em vão o vírus inodoro que havia contraído há quarenta anos. Pobre Sr. Orlando… talvez um dia inventem algum gel que limpe o ar em seu redor do cheiro acre, nauseabundo…

Artifício

A vista precede o estaloA cor se estilhaça de estrondoatraso, uma Primavera se escutaante cinzas cáusticas em teatroAbriu-se flor em meio de florestaà algazarra sobre o Tejo de Santo AmaroA pintura de fumo em efervescênciaPairando ardentia desta defunta matériaO som granuladocomo que se um cigarro aspirasseVem em aviso ordenadodo nascimento breve de perpétuaOxalá o esboçar…

À lareira

Quatro camadas de roupas e meias grossas, mas a minha alma arde pela cadeira baixa em frente à lareira, aquela que ladeia o lugar da minha avó.Todos sabem que um par de cadeiras, uma lareira e uma avó constituem a mais eficaz das máquinas do tempo, cujo único entrave é limitar-se ao passado. Sento-me e…

Sentir sem medo

Sentir sem medoÉ sentir sem correr,Sentir sem querer desaparecer.É amar a realidade,É amar qualquer possibilidade,É abraçar a ansiedade,E acima de tudo,Abraçar quem sou.Autoria: Ricardo Luís

Sobre os sonhos de alguém

Não sei ao certo se algum dia cheguei a conhecer-te de verdade,mas sempre que sonho contigo,vejo-te como se fosses alguém novo,como se outros olhos me mostrassem outra versão tua.Não me peças que te explique.Prefiro perder-me e engasgar-me com palavras nunca ditas e em pensamentos nunca lidos.Para mim, és o beijo frio de um disparo de…

Sem ti de nada vale

Sem ti de nada vale.Os pássaros não piamO sol não brilhaE a palete não tem cor.Sem ti de nada vale.A música não tem somO rio não tem água O filme não tem imagens.Sem ti de nada vale.A bicicleta sem rodas ficaO carro sem combustível para E eu sem sentido padeço.E por mais que tenteQue force…

A casa tem dois buracos.

A casa tem dois buracos.Ei-la, a casa de dois buracos.Não há porta, não há janelas.É uma casa sem nada.A casa tem dois buracos.Ei-la, repleta de cacos.Seus solavancos não são escadas,As paredes não têm bocados.A casa tendo buracosEnleia-se resignada A mesa ausente A cadeira desocupada.Acaso tendo só dois buracos Em vez de demolidaErgue-se a casa vaziaCuja…

Odeio-me

Odeio-meOdeio não saber amarOdeio te magoarOdeio não conseguir mudarOdeio que paraste de tentarOdeio que o Sol e a LuaApenas num eclipse se possam encontrar.Autoria: Anónimo

Carta 1/7

Houve alguns momentos antes daquele dia em que senti que me podia apaixonar por ti. Não se tratava de todo de um crush, mas de uma impressão que invadia os meus pensamentos de forma esporádica e casuística, como uma brisa fresca num dia quente. Surpreendias-me com os pedaços de ti que partilhavas, as tuas palavras,…

Tristeza alada

Pelas ruas solitárias da cidade, na tarde tardia, Gavia passa. Como um rato no meio de grandes felinos, rapidamente atravessa entre os enormes prédios, sem aparente destino, mas parece que seus pés não acompanham a velocidade que quer. Entre avenidas e vielas, desertas e encharcadas, passa um, dois, três quarteirões, até que para de repente,…

É disto que dezembro é feito.

É disto que dezembro é feito.É esperança inacabada,Memória de um passado não vivido;Odor a vida inesperada,Um segredo não ouvido.É visitar parte de mim inabitada,Confiança desconfiada.Alma tímida a teimarPor um medo quase meu.Há vida no que não sei,Há receio no “encontrar”.Explico o que não sei sentir,Sinto o que não sei explicar.Dezembro vem e eu não sei…

… Quando o Homem quiser

Chegámos à época mais bonita do ano: a época do bacalhau, do peru, do polvo (?), a época de descongelar a Mariah Carey e tirar o pó duma qualquer imitação de pinheiro que haja por casa, a época do astigmatismo ser mais aesthetic graças às luzinhas. É, sem dúvida, uma altura muito bonita, o ar…

Perdoei o Natal

Perdoei o Natal. Não sei ainda como ou porquê. Quiçá à força dessa redundância hilariante que embrulha todos os perdões: desejei o perdão. Secaram-se-me as lágrimas que me enturvavam os olhos, que me entortavam a alma, e, nesta vítrea limpidez, compreendi que a morte não se opõe à vida: legitima-a. Acima de tudo, concluí que…

O Natal?

O Natal não passa de um espetáculo de frivolidades. Desprezo e rejeito com todos os meus átomos o ato de “aMoR” programado, como se de um veneno se tratasse. As luzes elétricas que, ao prometerem decorar as ruas e as casas, apenas servem para mascarar a podridão negra dos corações e construções humanos.Que se tranquilizem!…

(sem) Título

Um rio cheio de amor banhava uma rocha afiada, deixada ali pela gravidade. O rio paciente e inteiro envolvia-a com ternura, tentando moldá-la com luz, calor e entrega. A rocha, com medo de ser levada e despedaçada, tudo fazia para resistir. Cada vez que resistia, algo nela se partia. Tudo o que a rocha queria…

Lá estás tu

Em tempos de solidão De teto caído de tanto olhadoDe corpo pesado de respirarEstás tu, sem faltaEstás tu, sem volta Nas horas vagarosas da manhãNas do meio dia, festivasNas apressadas da tardeNas da noite, saudosasNas extasiantes da madrugadaEstás tu, sem faltaEstás tu, mais nada!O perfume da tua simples existênciaEnovela, leva-me onde estou mais completaO negrume…

Longe de Casa

Caminho só, tão longe do lar,Por terras onde os sonhos vão parar.O preço da esperança, difícil de medir;Mil noites passam, sem poder partir.Os colegas vão quando o fim de semana vem,Para abraços, risos, tudo o que faz bem.Jantam em casa, recebem calor,Enquanto eu fico, sem esse amor.Seguro o telemóvel, ninguém a ligar,Sem voz que diga:…

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