Dr. PrEscreve

A casa tem dois buracos.

A casa tem dois buracos.Ei-la, a casa de dois buracos.Não há porta, não há janelas.É uma casa sem nada.A casa tem dois buracos.Ei-la, repleta de cacos.Seus solavancos não são escadas,As paredes não têm bocados.A casa tendo buracosEnleia-se resignada A mesa ausente A cadeira desocupada.Acaso tendo só dois buracos Em vez de demolidaErgue-se a casa vaziaCuja…

Odeio-me

Odeio-meOdeio não saber amarOdeio te magoarOdeio não conseguir mudarOdeio que paraste de tentarOdeio que o Sol e a LuaApenas num eclipse se possam encontrar.Autoria: Anónimo

Carta 1/7

Houve alguns momentos antes daquele dia em que senti que me podia apaixonar por ti. Não se tratava de todo de um crush, mas de uma impressão que invadia os meus pensamentos de forma esporádica e casuística, como uma brisa fresca num dia quente. Surpreendias-me com os pedaços de ti que partilhavas, as tuas palavras,…

Tristeza alada

Pelas ruas solitárias da cidade, na tarde tardia, Gavia passa. Como um rato no meio de grandes felinos, rapidamente atravessa entre os enormes prédios, sem aparente destino, mas parece que seus pés não acompanham a velocidade que quer. Entre avenidas e vielas, desertas e encharcadas, passa um, dois, três quarteirões, até que para de repente,…

É disto que dezembro é feito.

É disto que dezembro é feito.É esperança inacabada,Memória de um passado não vivido;Odor a vida inesperada,Um segredo não ouvido.É visitar parte de mim inabitada,Confiança desconfiada.Alma tímida a teimarPor um medo quase meu.Há vida no que não sei,Há receio no “encontrar”.Explico o que não sei sentir,Sinto o que não sei explicar.Dezembro vem e eu não sei…

… Quando o Homem quiser

Chegámos à época mais bonita do ano: a época do bacalhau, do peru, do polvo (?), a época de descongelar a Mariah Carey e tirar o pó duma qualquer imitação de pinheiro que haja por casa, a época do astigmatismo ser mais aesthetic graças às luzinhas. É, sem dúvida, uma altura muito bonita, o ar…

Perdoei o Natal

Perdoei o Natal. Não sei ainda como ou porquê. Quiçá à força dessa redundância hilariante que embrulha todos os perdões: desejei o perdão. Secaram-se-me as lágrimas que me enturvavam os olhos, que me entortavam a alma, e, nesta vítrea limpidez, compreendi que a morte não se opõe à vida: legitima-a. Acima de tudo, concluí que…

O Natal?

O Natal não passa de um espetáculo de frivolidades. Desprezo e rejeito com todos os meus átomos o ato de “aMoR” programado, como se de um veneno se tratasse. As luzes elétricas que, ao prometerem decorar as ruas e as casas, apenas servem para mascarar a podridão negra dos corações e construções humanos.Que se tranquilizem!…

(sem) Título

Um rio cheio de amor banhava uma rocha afiada, deixada ali pela gravidade. O rio paciente e inteiro envolvia-a com ternura, tentando moldá-la com luz, calor e entrega. A rocha, com medo de ser levada e despedaçada, tudo fazia para resistir. Cada vez que resistia, algo nela se partia. Tudo o que a rocha queria…

Lá estás tu

Em tempos de solidão De teto caído de tanto olhadoDe corpo pesado de respirarEstás tu, sem faltaEstás tu, sem volta Nas horas vagarosas da manhãNas do meio dia, festivasNas apressadas da tardeNas da noite, saudosasNas extasiantes da madrugadaEstás tu, sem faltaEstás tu, mais nada!O perfume da tua simples existênciaEnovela, leva-me onde estou mais completaO negrume…

Longe de Casa

Caminho só, tão longe do lar,Por terras onde os sonhos vão parar.O preço da esperança, difícil de medir;Mil noites passam, sem poder partir.Os colegas vão quando o fim de semana vem,Para abraços, risos, tudo o que faz bem.Jantam em casa, recebem calor,Enquanto eu fico, sem esse amor.Seguro o telemóvel, ninguém a ligar,Sem voz que diga:…

Esperança

Nestes frios dias de nevoeiro, sem sequer um raio de luz do sol, a flor não floresce.Este pequeno ser mirra, as suas cores outrora vibrantes tornam-se pálidas e as suas pétalas revestem-se de melancolia e solidão engelhadas.É como se, sem a companhia calorosa do brilhante astro, perdesse a alegria de viver, como se dar cor…

Delirantes 25 anos

Consciente da passagem do tempo por mim, sou novo, e tão novo vejo em mim brotos de pequenos cabelos brancos; apercebo-me de uma certeza, que por certa há muito a tinha: a certeza é a de que o tempo traz e o tempo tira. A cada dia do antigamente, o que me parecia longínquo, hoje…

Da minha palma voam sonhos

Da minha palma voam sonhos.Deixo-os ir sem por eles dar.Não os agarro pela pressa de acordar.Sussurram-me baixinho mundos adiantesE com cuidadinho minam-me o pensamento.”O que não fiz?””Porque não fiz?”Com medo não saltei.Porventura, por saber-me preso ao passado.São notas ténues que oiço, Uma melodia diária Mortífera e cruel.”Quando vais?”Eu não sei.”Mas vais?”Também não sei…Onírica esperança de…

Sem Título

Sou só um rio a tentar seguir o meu curso. Tento esconder-me nas margens mais isoladas e sou empurrado contra rochas afiadas. Tento nadar em paz, a correnteza puxa-me de volta. No fim, impotente, estou obrigado a fazer o ridículo, para tentar proteger todos. Grito em silêncio.Autoria: Gestrudes Marlene

Ainda arde?

Luz no peito. Chama que ilumina e chama que ofusca.Chama que aquece e chama que queima.No deixar arder da vida, ficam feridas e queimadas páginas do que já se escreveu outrora. Da varanda, acendendo um cigarro, fuma-se e esfuma-se a vontade de querer aquecer, para que só sobre saber queimar.Arrefece-se sozinho, na noite sem luz,…

2 Macabeus 9

Como ator, sei a dor que o meu personagem causou e o peso que as minhas ações, muitas vezes contrárias às minhas intenções, tiveram. Depois do intervalo das gravações, não tenho sido o mesmo, desconectado da minha essência e de quem sou. Nos últimos meses, tenho-me sentido morto por dentro, sem alegria, sem esperança e,…

Etiologia de uma síncope

Ai se soubesses, meu amor,Da Adrenalina que libertas Das minhas suprarrenais,Das Endorfinas que entramNos meus circuitos cerebrais,Da ejeção em elevada fração Que provocas no meu pobre coração…Só por te ver passar No canto do olho,Ai do meu troclear!Teve um espasmo no impulsoDo azul da tua íris,Esfera das esferas.S1, S2…Brilham em ti todos os sóisS2, S1…Ai…

Sem Título

Cheguei à conclusão de que não posso vencer este naufrágio sozinho. O barco que comando está afundado até ao convés, e já não tenho forças para remar contra o mar. Estou à deriva, no limite das minhas velas rasgadas. Só me resta o desejo de devolver a calma às águas que agitei, de ser um…

Não cales o que me queres dizer

Não cales o que me queres dizerNão deixes nada por falarGrita alto e sem medoAquilo que eu também te quero contarOs teus silêncios confundemMas o teu olhar já não enganaConfessa a procura do teu toque pelo meuE do beijo que ainda não aconteceuSentimento transcendente Que transborda pelas torrentes do meu respirarFogo que mais se acendeE…

Preferência

tão aérea a forma como se criam preferências, desequilíbrios nas vontades. tão irónico sentir irracionalmente, sem querer, e saber que me rege a Segunda Lei da Termodinâmica: o mundo evolui inevitável e incompreensivelmente para o aumento da entropia. todo este caos térmico que chocalha dentro de mim (e me violenta!) é produto de uma lei.…

Pertença

O ser humano é um ser social:Precisa de pertencer a algo maior do que ele mesmoOu enlouquece, perde-se,Atraiçoa-se antes de entender em plenoQue a sua própria voz tanto pode ser curaComo veneno.Então porque não consigo pertencer plenamenteA ninguém nem a nada,Qual espasmo involuntário da almaAo ser tocada?Porque sinto que não sou suficiente nunca?Porquê esta experiência…

Pequenino

Pequenino, não tenhas pressa,que o tempo avança e não cessa.Vai lá para fora brincar, suja-te!Ou ficas de castigo imediatamente.Não te atrevas a fazer a cama.Não tenhas medo de rebolar na lama.Não passes por uma árvore sem a subir.Não te esqueças de rir demasiado alto.Pequenino, rápido, esconde-te debaixo da cama.Estás melhor com o monstro do que…

(Des)encontrado

Coração chorado,Quem te magoou?Foste assim deixadoDe ti.Porquanto enamorado,Sozinho terminasteFora de mim,A um palmo de ti.Regressa cheio,Peço-te,Conta-me onde estivestePor onde viajaste,Quem te ouviu.Faz-me felizFar-te-ei moradaFarta, alimentada,Algures em mim.Escavarei um lugarMedido à tua medida,Pouco apertado,Algo aconchegadoPara seres encontrado,Por fim.Autoria: Maria Vicente Teixeira

A mochila invisível

Aqui estou, sentada nesta sala de espera. Vim ver alguém que nunca vi antes. Bato com o pé no chão, uma tentativa silenciosa de lidar com o nervosismo. Dentro de instantes, serei chamada para conversar com uma pessoa desconhecida sobre mim, sobre os meus sentimentos, sobre as minhas angústias. Eu não quero falar sobre mim.…

A inveja de quem não vive

Obscura razão de ser, esta de estar vivo;de sair e espairecer sem nunca saberdas coisas mais que um signo, mais do que um motivo.Mas essa obscura lanterna que irreverente brilha em nós o sol celeste, que migra as terrasna embolia de se fazer ao mundo agrestecom coragem, dedicação; como aturdidaàs margens desse instante rio e…

Sobre teus silêncios voluntários

Nunca deixaste de saber o que dizer. As ausências nem sempre foram um problema entre nós, apenas reflexo daquilo que escolhemos omitir. Reciprocidade muda. Só que guardaste mais; tanto que nos privaste, tanto teu que pôde ser nosso e nunca foi. A quietude imposta não te servia bem. Eu te olhava em meio ao silêncio…

Um dia

Peguei no telemóvel, como sempre, à espera de uma mensagem tua. Era um reflexo automático, uma esperança silenciosa que insistia em permanecer. Entrei aqui e os meus olhos procuraram-te sem que eu precisasse de lhes dar ordem. Queria ver-te à minha espera, como antes, como se nada tivesse mudado.Ouvi uma piada que me fez rir,…

Alguém

Se sou alguém por ter alguém?Se tenho alguém por ser alguém?Esperam ver-me,Por isso, levo-me lá para fora, Sou eu e tenho alguém,Tenho-me a mim e a elesDentro de mim, que me fazem ser eu.Se já sou alguém?Se vou ser alguém?Era o que eu dizia e o que dizem.Fui eu, alguém para alguém…Sou eu, alguém por…

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