Party like there is tomorrow

Ano Novo. Novo Ano. Novo eu. Estrelas, vestidos brilhantes, copos de champanhe. Bolas de espelhos, luzes, foguetes. Mensagem pré-feita, Orçamento de Estado, resoluções.

Haverá algo de novo? – Parece uma pergunta sem sentido para se fazer no Ano Novo, porque a resposta está à vista: há 365 dias novos, um ano, toneladas de horas, de minutos, de fotografias, de palavras, de risos, encontros, desencontros… Únicos, inigualáveis, radicalmente diferentes dos dias, horas, minutos, fotografias, palavras, risos, encontros e desencontros do ano anterior, e do antes do anterior, e do antes do antes… Nada se repetirá, claro!

No entanto, a “new year aesthetic” do Pinterest muda de tons de cor e de filtros, mas os motivos são os de sempre, cores cintilantes, preparar a página em branco – não! o livro novo – e o relógio, tudo a postos para festejar o fim de mais um ano como se não houvesse amanhã, mas porque há um amanhã, um ano novinho a estrear.

E vamo-nos entorpecendo com as memórias de dias que correram por nós, colamos as arestas das feridas com glitter glue com a mesma naturalidade com que pomos um alfinete na bainha do vestido, dançamos muito, conversamos mais, ouvimos nada… Vai crescendo em nós a antecipação e temos a certeza de que é esperança, é otimismo, é possibilidade!

Atingimos o clímax à meia noite, beijamos um desconhecido na rua e gritamos Thank You, Next a 2022…

E voltamos a casa. Os Abba fecharam a pista de dança: “Are all dead, nothing more/ Than confetti on the floor”.

Acordamos com dor de cabeça, corremos nauseados para a casa de banho e começamos lentamente o dia, a roupa cheira a bebida entornada e a fumo de tabaco, a voz está rouca e já não é hoje que começo a ler 50 livros, nem a ir ao ginásio. Amanhã… tenho 365 vidas.

Ou 364. O filme é conhecido… Ou a série – é Mad Men: Don Draper e o seu, que sabe a nosso, “I’m living like there’s no tomorrow” acaba com um tom torcido que desejamos ignorar: “because there isn’t one”. Este é o primeiro dia do resto das nossas vidas e, afinal de contas, não é mais do que uma cópia do anterior, com um filtro diferente, uma saia mais ou menos curta, a moda a pôr-te uma alça, duas ou nenhuma no ombro, menos foguetes ou mais inflação. 

A orgíaca natureza da adulação da novidade, coberta em fast fashion que nos ajuda a expressar bem o nosso fast living, revisto em time-lapse editado 47 vezes, o seguir em frente continuamente numa corrida primitiva de cão atrás da própria cauda…

Vemo-nos numa sala de espelhos da mansão Gatsby, mas a luz não chega à bruma da nossa mera sobrevivência. E o clímax extingue-se numa poça de vodka barata que caíu ao chão com uma beata manchada da cor que têm os beijos vãos, prostituídos… A entrada é feita com primeiro passo de um pé direito com calo e a primeira pedra é só mais uma das que te pesam no peito e na cabeça… E o novo capítulo é de um livro sem sentido que dói como uma contracapa. O futuro é uma sombra de um ontem mal mastigado e cuspido. O presente é um compromisso adiável. O passado ficou preso na Alfândega e apodreceu. E os teus sonhos estão escritos com as letras do teu obituário: “So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.” (F. Scott Fitzgerald)

Autoria: Ana Fagundes