Crianças. Todos crianças.
Por mais que olhe à minha volta só vejo crianças.
Do outro lado da passadeira uma criança enrugada fuma um cigarro.
Apanhei o autocarro, fiquei surpreso:
Quem o conduzia era uma criança com barba.
Desisti da superfície e desci ao metro.
Uma maré de crianças inundou-me.
Umas correm para as portas como se da morte fugissem,
Apressadas e provavelmente atrasadas para a sua brincadeira diária.
A criança sentada ao meu lado brinca sozinha, num aparelho desconhecido.
Tem luzes e faz sons.
Acabou de o encostar ao ouvido,
Cuidado criança!
Parece estar a falar com outra criança.
Que estranheza, crianças a combinar beber cerveja…?
Finalmente saí do metro, exausto de tanta novidade,
Não me encontrara preparado para tal achado.
Verídico é que à saída mais em choque me encontrei.
Uma multidão de crianças empurrava-se,
Carregando pastas, ostentando gravatas e fatos caros.
O que se passa hoje?
Cansei-me, volto cá amanhã.
E no dia seguinte, pouco depois de acordar
Lambusei a mortalha em breve feita em cinzas
E encostei-me ao parapeito da janela
Fazendo argolas com uma substância cinzenta e cancerígena.
Tudo estava calmo e o sol raiava no meu pijama.
Impossível! Outra criança com cabelos brancos?
Chuchando um cigarro!
Os Deuses estão loucos.
Crianças não fumam cigarros,
Não bebem cervejas.
Em pânico, apanhei o comboio para casa dos meus pais.
Abri a porta de casa e espantado deparo-me com duas crianças.
Em desespero enclausuro-me no quarto.
Olhando-me ao espelho entro em choque:
Também eu sou uma criança!
Os meus olhos ganharam outras lentes,
A realidade não é filtrada por estes.
Pelo contrário, parece que só agora enxergo a verdade.
O mundo está destroçado e nada mais me ampara.
Talvez o chão.
Fui à minha varanda de sexto andar para conduzir uma experiência científica.
Será que as crianças têm asas tão grandes quanto a sua ingenuidade?
Autoria: Ricardo Silva

