Termómetro

Flamejantes odores chegam-me

Da cidade de folhas longínqua.

O céu tingido de vermelho

De um choro lânguido e refundido.

É o sangue que paira sobre todos nós.

O sangue de todos nós, que em breve se derramará

Sem remissão dos pecados, mas por eles.

Consequência última de todo o mal,

Num mundo sem Deus.

Pepitas de metal amarelado pesam menos que o pão

Mas mais que o sangue.

Uma vez engoli uma,

Senti-me gigante.

Capaz de tudo,

Capaz do mundo

E mundo em mim mesmo.

Depois vomitei, o ouro é indigesto.

Em torres de betão

Constroem-se torres de camarão.

Torres e mais torres,

Até chegar a torre do verão.

Essa torre do termômetro que é mais alta que todas.

É uma canseira caminhar pelas ruas fétidas de podridão de alma.

Como que se visse por entre os peitos,

Adivinho bolor em cada coração.

É nauseante ver esta vida de instantes.

De momentos mais efémeros que a própria morte,

Mais vazios que o próprio vácuo.

E de momento nada mais me ocorre senão o conforto da espingarda.

Miolos na parede.

Sangue.

Sofá manchado.

Vou levar um sermão da minha mãe.

Autoria: Ricardo Silva