Lembrei-me de ti hoje quando passei por uma loja de electrodomésticos e vi uma chaleira verde-menta, como a que tínhamos lá em casa. E com isto, não te quero insultar. Bem sei que não é a melhor maneira de relembrar alguém, mas algo naquele objecto tão pacato, fez-me recordar uma felicidade doméstica. E de como tu eras a sua personificação.
Ficavas sempre chateado quando a tua personalidade era equiparada a personagens de livros e filmes, que consideravas aborrecidos ou previsíveis. Por piada, eram sempre as personalidades que mais admirava, as minhas preferidas.
Não eras a limonada mais amarga nem o cocktail mais excêntrico do menu, mas a água mais pura, mais fresca num dia de Verão.
Eras o pedido de alguém que já é regular na pastelaria ao pé de casa. Quando te cumprimentam e te perguntam com cumplicidade: “o habitual?”
Não eras chama apagada nem incêndio descontrolado, mas a vela que nos ilumina naqueles longos serões de estudo. Ou a caneca de chá de cidreira, a fumegar, ao nosso lado.
Não eras montanha russa, mas o gelado que se compra no parque de diversões. O pé que te encontra debaixo da mesa, num jantar de família. As mãos discretamente entrelaçadas num elevador apertado.
Não eras concerto de rock, mas eras a rádio que ligávamos enquanto cozinhamos o jantar. Eras o ombro em que adormecia, nas longas viagens de autocarro.
Nunca foste uma sexta-feira boémia nem uma temida segunda-feira. Eras um domingo preguiçoso, quer solarengo quer chuvoso, com manta felpuda, durante uma sessão de cinema e carinho.
E eu sei, nunca gostaste disso. Dizias que eras entediante , o sabor baunilha entre as pessoas.
Mas para quem já foi chamada de dramática mais vezes do que consegue contar, tu sempre foste o fenómeno mais belo e incansável.
Para quem salta e cai de abismo em abismo, agarro-me à memória da calmaria, da brisa e do sol que me fazias sentir. E lembro-me de ti: eu, sentada no sofá azul petróleo, a apreciar-te, na varanda, a ouvir mais um podcast ou a aprender um facto bizarro, junto à roupa acabada de pendurar; e de ficar simplesmente maravilhada.
A verdade, à qual ainda hoje és alheio, é que nestes momentos de quotidiano tão ordinário, eras e sempre serás, aos meus olhos, absolutamente extraordinário.
Autoria: Ana Margarida Fonseca

