Guardei-te para sempre.
Foste a minha musa e no dia
Em que da minha janela sumiu a alegria
Trovejou toda a noite.
E de manhã, apenas uma pinga caiu na vidraça,
Pois eu roubara toda a água e dera-a aos meus olhos.
Para que, afogados, não vissem mais os teus.
Depois afoguei-me eu.
O meu chão tornou-se escorregadio e movediço,
E eu fugia de ti como da morte.
Mas vivia afogado,
Para de ti fugir melhor.
E por mais que nadasse e nadasse
Em direção à superfície
Não a alcançava.
E dia após dia esperava
Pela hora em que o dilúvio terminasse.
E quando o mundo finalmente secou,
Restei eu, prostrado na relva, fitando o Sol.
Fitando os carros e as avenidas, as rotundas.
Fitando o mundo para além de ti, sem ti.
Contudo, algo ficara.
Preso ao coração que pescaste
Uma linha a um anzol atado.
Não me deixas ir
E continuamente me pescas, me puxas.
E eu continuamente me deixo ser puxado por ti.
Estás nas salas mal iluminadas.
No silêncio das madrugadas.
No Jazz e no Blues.
Num banco da Cinemateca
E na mais solitária biblioteca.
Lendo, pacificamente.
Dando alimento à tua dispendiosa alma.
Essa a que me encontro preso
Pois em todo o lado te encontro.
E espero, lentamente, que se desprenda o anzol.

