Açúcar

Há momentos em que me rio perante o absurdo. Outros em que recito todo o vocabulário digno de um marinheiro ou quebro o terceiro mandamento.
Hoje, só me consegui afundar na cadeira, resignada.

Passei horas na cozinha! Arranhei todos os utensílios, preparei tudo com primor! Nem costumo ser uma má cozinheira: adoro inventar, seguir uma receita com o seu quê de imaginação. Adoçar um pouco as regras inflexíveis do livro de instruções. E hoje, gulosa como sou, queria fazer um bolo.

Nada muito elaborado, um simples bolo de limão.
Ovos, leite, raspas e sumo de limão, farinha, fermento…Como é que consegui esquecer-me do ingrediente mais essencial??

A cozinha continua desarrumada e continuo a olhar fixamente para o bolinho amarelo à minha frente. Parti uma fatia e sem surpresa: amargo que dói! Talvez se o embeber em leite?

Suspiro e engulo mais um pedaço. E eu que queria mostrar a minha proeza!

E começo a magicar cenários: elogios de uma sobremesa deliciosa; do teu sabor entre beijos doces e sorrisos. Imagino-te aqui ao meu lado. Nunca invisível, nunca a mais, a tornar o serão mais méleo.

E como sempre, a seres a melhor parte do dia. Como uma sobremesa cúmplice, depois de um jantar entre amigos. Tudo o que se quer nos momentos amargos ou numa limonada amarga no verão. O mais suave dos abraços, cheio de ternura, cheio da tua doçura.

Seres a melhor parte do fruto carnudo, seres um meigo lembrete que a vida tem cor. Não uma adição, não uma doença, mas uma das partes mais naturais da natureza, da nossa bioquímica.

Suspiro e olho para a minha criação: que triste é um bolo sem açúcar! Que triste é uma vida sem ti!

Autoria: Ana Margarida Fonseca