quando nada brilha tudo arde

quando nada brilha
encontra-se maneira de fazer com que tudo arda;
o coração esfriado sente em si a alma exangue
de todo o sentimento que não é dor;
passa-se uma vida à procura de felicidade como aquela
de que só se lembra as cores e não contornos de tela;
a vida é demasiado real para se viver assim
e houve dias em que preferi
o sofrimento ao vazio;
sinto que tudo o que escrevo é redundância
e que já é tão difícil arrancar arte
a uma alma exangue de melodias novas;
sinto junto a mim por vezes
uma vontade de fazer algo de novo
e de retirar de mim mesma esta forma de estar vivo
com alguém que pensa dentro de mim
mas não é meu nem sou eu,
mas uma outra forma de existência,
uma consciência quase roubada ao éter
uma forma de escalpelizar todos os detalhes plausíveis
e todos os momentos passíveis
de serem assim analisados quase compulsivamente
como quem respira ar de sensação e de pensamento
e de coração que palpita em palavras
bebendo sílaba a sílaba este incessante trautear de vagos rabiscos sem fundo
desenhados nas margens de um crânio oco e drenado de sentido;
nesta vida não há nada que não seja procura,
e nuns olhos brilhantes
procuramos inferir uma dor como a nossa
e nuns olhos profundos
procuramos encontrar uma alma que não saiba
o que é andar neste mundo de pés descalços
e num sorriso surdo
procuramos alguém que nos sinta com juventude
porque tudo o que fomos neste mundo
nos foi roubado da infância que não soubemos ter
ou tivemos tão efemeramente
que nem a dor de a lembrar saudosamente nos resta
e nuns olhos quentes
procuramos um medo igual ao nosso
daqueles dos quais só se fala de olhos fitos no parabrisas
entre as efervescências breves de rodas molhadas na estrada;
por vezes é necessário sentir que não estamos sozinhos,
que alguém nos toca a mão vazia
e que ela pesa o mesmo, subitamente,
e que a concavidade expectante por fim se enche de nexo
e que alguém olhou o mundo com olhos nossos
e que sentiu na alma esta mesma angústia de não saber viver
e apenas instintivamente saber estar vivo.
tudo é uma busca incessante
porque não haveria outra forma
de fazer o tempo prosseguir,
sem uma força centrípeta de lógica
que nos mantém os ponteiros em círculo
e não nos foge cortando a órbita temporal em linha reta.
não me deixem continuar assim,
elaborando indefinidamente discursos arrebatados
à vida e à arte dentro dela que é afinal dentro de nós;
não liguem ao arrebatamento, que afinal é só uma forma de ser eu
gota de sangue pingando como chuva
neste mar de sensação que quero roubar à vida sem ninguém ver;
nunca soube ser eu em frente aos outros
e qualquer densidade dissolve-se na presença alheia;
por isso nestes silêncios encho uma sinfonia
insuflada à custa de palavras e respirações
e construo com palitos de madeira
uma pequena revolução incendiada em silêncio,
uma forma tímida de rebeldia,
de tomar a vida em mãos cheias de sentimento,
transbordando em margens de folhas soltas
em que alguém reconhecerá, talvez,
uma dor tão singular de se ser poeta
de se sentir com cada terminação nervosa
e se enquadrar cada momento em aguarela,
quase sem se saber o que fazer com
a vontade ofegante e desproporcional de se fazer da vida arte;
e esta timidez insólita,
esta vaga de ser, de sentir
transborda em voz baixa, confidente;
ela não sabe o que dizer em voz alta
e sente amarga e brilhante
uma necessidade quase como fôlego
de contar o que sente
de dizer ao mundo que se vive assim
nesta existência que não se pode dar a conhecer de outra forma,
com um sorriso apologético,
com um olhar brilhante e ansioso
suplicando que percebam que isto não é voluntário,
é uma forma de se ser tão angustiante como milagrosa;
e às vezes existe uma espécie de medo,
uma barreira tão intransponível quanto invisível
de se explicar como é ver o mundo,
como é viver-se dentro desta pele e destes olhos;
é em palavras,
é em silêncios arrumados numa ordem de linguagem
que se explica isto
que se explica esta maré insólita
de ser tudo tato e olhar e sensação;
é assim que se expõe todo um baralho de uma vez
numa jogada arriscada de fé e probabilidade estatística
a implorar encontrar um eco
nesta existência aplanada, indelével e inteligível.

Autoria: Maria Sykes