Quando nascemos, os olhos são cinzentos, a cor só vem quando de dias saem meses. A visão é de turva névoa, com alcance de régua, só enxerga o rosto dela. Esse nós víamos bem, era a face da nossa Terra. Se nos pousasse e fosse embora, era tristeza quase cega.
O seu sorriso ensinou-me que ser feliz é um bom nome, quando me achou capaz, levantei-me e fui atrás. Agora ando e falo, reclamo e não me calo, e eu levo-a comigo, engenha do meu ensino. Está cansada? Não sei o que é isso. Ainda bem que as mães não dormem (nem eu preciso).
Virei Peste, ninguém me aguenta. O mundo contorce-se com os gritos da adolescência que me sustenta. Fiz-lhe falsa inimiga, mas a verdade é que só ela me ouve, só ela me consola a tristeza. Como eu a amo, como eu a tramo, e não lhe digo como estou a sentir. Que é que quer que eu lhe diga? Que não há maior pessoa favorita, a de mais longa data amiga (“não sou tua amiga!”) que a cegonha me veio atribuir?
Toda a gente a invoca, a avó diz “Ai, mãezinha!” quando se levanta do sofá e a velhice a quer sentar de volta. “Ai, Mãe!” quando a conta é choruda, “Ai minha mãe!” quando a discussão era doce muda. “Já vou, mãe!”, quando a distância é surda. Toda a gente a chama, toda a gente a escuta. E agora, ela chora, as lágrimas que mais temo verter. Também ela nasceu doce filha, de visão acinzentada, agarrada à saia bem bordada. Vejo-a sofrer pela mãe que perdeu, pela mulher que a fez viver. E elas vivem em mim, costuraram-me os pedaços, sempre com rigor, com as pontas bem vincadas. E agora adulta deslocada (já não me marcam o percentil) quando escrevo a palavra “amor”, escrevo-a com três letras e um til.
Prometo cuidar, prometo aparecer, prometo ligar.
Graças a ti sou eu, graças a elas somos nós.
Grata, mãe.
Autoria: Augusta Parsotam