Diário de um dia apagado

De caule ereto e cansado
De olho ao trânsito longe
Todos os dias passam serenos, mortos.

Mas hoje acordei energizada.
Uma brisa diferente me desfolhou.
Há tanta gente na rua!

Curiosa, perguntei às outras o que de tão peculiar se passara.
"Ainda não ouviste falar? Até em Espanha está assim!"
"E decidiram vir todos para a rua, dar-nos alimento"
Mas que raio? Resposta não ma deram
Mas dúvidas, com certeza.

E olhando atentamente para aos mãos que débeis
Não sabem do seu paradeiro,
Nenhuma delas transportava um ecrã touch.
Nenhuma delas continha música portátil.
Nenhuma delas se conectava ao outro lado do mundo, mas sim ao mundo que à sua volta a esperava.
Enchiam-se de coleiras, cervejas, até de outras mãos.

Subitamente, a rua encheu-se de humanos, de novo.
Como já não via há muitos anos.
E percorreram-na alegremente, jogando o tempo ao vazio,
Preenchendo-o com tudo o que à sua volta encontravam.
E lentamente caminhavam. Rindo, conversando.
Algumas até olharam para mim!
Acho que nunca me senti tão observada.

E, subitamente, com tudo tão apagado,
Entreviam-se corações acesos.
Olhares recheados.

E, a pouco e pouco, anoiteceu.
E como nem o velho candeeiro me iluminava,
Fiquei perdida à procura do meu diário, no escuro,
Onde apontar o que vira.
Mas desisti e fiquei a ver as estrelas.
Que saudades eu tinha de ver estrelas.

Oxalá fossem todos os dias assim...

Que estranho dia apagado!

Autoria: Ricardo Silva
Publicado a 28/04/2026