Meu amigo,
Amigo que me sobrevive,
São quatro da manhã, quase verão, quase Natal. É tempo das crianças ofegantes, é tempo das cartas a um Pai que, tendo Maiúsculas de Coca Cola, não é, menos do que O Outro, objeto de fés e de festas. É tempo dos desejos, mas eu não desejo nada e não escrevo cartas e não escrevo prosa, que desatino, desaprendi-a no desalinho de cantar a um pássaro cuja espécie não sei nomear. Tu, quiçá, sabê-lo-ás, pela brandura com que olhas os animais. E tenho medo de dizer-te (embora o saibas) que saber-te ornitólogo me desmontou os versos todos, tornou-os inversos, e com tudo isto, não te invejo, e só já dessa agrura me despejo quando desejo os teus abraços e as tuas cartas, que são abraços sem amarras.
Cessei de esperar pelo pouso da inominada ave. Hoje, desespero ante a visão do seu voo raso. Tantas asas, tanto voo, e vou tombando num aeropoço, que aeroporra, mastigo um sentimento de poeira, um abandono cheio de tosse, e tusso até às lágrimas, amigo, não tanto pela diabólica tramóia que os fados nos montaram, mas sobretudo pela divergência que adivinho no encontro laico das nossas cruzergências. E ainda não sei dizer-te tudo quanto isto abarca, não sei para onde embarca, devo só calar esta voz rouca de quem não teve boca para cantar e marear-me no silêncio ralo de um galo amigdalítico.
"Somos apenas miúdos", disse-o a feiticeira de tranças que nunca chegou a despentear-me num passo de dança, magia que em simulacro foi milagre imaginado, mas que tu viste, ouviste e abraçaste (sabias lá, ou sabias já?, com amarras). A ironia cinematográfica desta longa-metragem que ninguém tem sabido medir é que os putos são puros, puros e brutos nas suas bondades e vontades, desengane-se quem se julgou envelhecido pela adolescência ou empedernido pela senescência. E como não te acotovelar, amigo, numa sala tão pequena partilhada com tanta pena? Adormeço esses pesadelos com a crença pretensa de que estes cotovelos pueris não poderão magoar-te, em virtude da sua profilática pequenez.
Então, serei semente, por vento somente despenteada, e sobrevoarás esta divisão endividada – de mãos dadas com as tuas asas ou de mãos dadas com as tuas mãos. Porque te amo, amigo.
Cala o meu silêncio com esse amor,
Meu amigo voador.
Autoria: Nina Simões