Como eu gostava de acabar
Como uma nota de pesar.
Com um fim ambiguamente misterioso,
Que deixasse os demais que sofrem a duvidar,
Com o meu escalpe esborrachado num pavimento,
Num plano agreste, irregular,
Banhado no sangue dum sucesso
Que não se pode mostrar.
Assim quereria eu acabar,
Numa nota de pesar.
Com o luto dos vários, inúmeros,
Compaixões honestas no meio do quotidiano,
Uma disrupção do ritmo normal sem paz,
Homenageando um estranho,
Ambiguamente morto, consumado,
Num corpo inerte que se desfaz.
“Quero morrer,” dizia ele,
E as gentes ignoraram nele o rapaz.
Assim, com toda a honra que isso me traz,
A imortalização numa caixa de entrada aberta,
Enterrado de forma fugaz,
Sem dúvida que quero acabar
Numa nota de pesar.
Que estas notas não me pesam,
Só me deixam voar.
Autoria: José de Sousa

