Nem nascido era, e já no líquido amniótico as expectativas me afogavam: “Terá a beleza dos irmãos? Espero que tenha a cara do pai. Será uma menina? Será que vem aí mais um menino?”. Tão contrastantes eram algumas das sugestões que soltavam junto ao que, em semanas, viria a ser eu, que sem grande vontade minha, o destino as cumpriu. Outras, inevitavelmente, pela fala ficaram. Assim, ainda sem respirar, quando à 16ª semana a tela negra revelou o meu corpo em branco, já havia quem eu tivesse desapontado: “É rapaz!”.
Por fortuna que a vida me deu, após o nascimento, não tinha pela frente grandes alterações para além da estatura. Deste modo, poucas esperanças poderiam ter quanto à minha aparência, restando apenas os desejos quanto aos meus traços. Assim, no decorrer da infância, como o mero rebento que era, cresci por entre as estacas esperançosas que em mim foram colocando, formando a árvore que agora acho ser. Adaptado a cada uma das pequenas peças que foram impedindo o meu crescimento, segui sempre o trajeto favorável aos outros.
Agora, todos os que em tempos impuseram estacas no meu caminho, celebram as principais vitórias que lhes vou revelando: “Mãe, Pai. Entrei em medicina!”. Alegram-se, sabendo que os sermões que deram, por vezes contra vontade própria, os comentários que às vezes se sentiram obrigados a fazer, os olhares reprovadores que voluntariamente escaparam de si, valeram a pena. Assim, tal como os meus queridos desejavam, tornei-me, provavelmente, a árvore mais alta que poderia ter vindo a ser; de qualquer modo, se assim não for, não o saberei.
De esperanças tenho feito a vida, não as minhas, desejava-o, mas as de todas as pessoas que sobre mim marcaram o olhar e a expectativa de que um dia chegaria aos ideais que visionam em mim. Todos estes que assim me impactaram, fizeram com que crescesse, sim. Mas eu não queria ser alto. Queria ser único, à minha maneira. Queria crescer sobre as minhas próprias estacas e tornar-me a minha própria árvore. Talvez muito diferente das restantes que perfazem o bosque que a sociedade é, mas seria eu.
Atualmente, analiso as estacas e pondero a sua função, removendo aos poucos as que me impedem o formato desejado e deixando as que me guiam na direção que, por enquanto, considero correta. Já os ramos que até agora se formaram, deixo-os lá, não os posso cortar, mas, gentilmente, vou moldando um a um. Alguns, que mais anéis formaram com o tempo, dificilmente os desloco, mas nenhum é imóvel e, eventualmente, tornar-se-ão no que eu quero que sejam os meus pilares de madeira.
Agora percebo. Durante muito tempo, deixei-me ser um bonsai, que cresce constrangido por normas que alheios lhe impõem. Hoje, continuo a ser a planta, mas sou também o seu jardineiro. Nasci para o ser, só não o tinha percebido; para viver sobre as constrições e expectativas que me coloco; para ser livre de crescer do meu próprio modo.
Nasci para ser livre.
Autoria: Tomás Forreta

