Pessoal Vol. 3

Conheci O Goleiro no IPO de Lisboa. Estava no estágio de Oncologia do meu 5º ano, no dia dedicado à Oncologia Pediátrica. Nessa manhã tinha tentado preparar-me, repetindo para comigo mesma algumas noções teóricas. <<O prognóstico da maior parte dos cancros é muito melhor nas crianças>>, <<As crianças são mais fortes do que nós, sobretudo em espírito, que é o que mais importa>>. Fiquei colocada na consulta, e nessa manhã havia uma primeira consulta para um rapaz que vinha de longe, do Sul. E ele entrou, com o pai e a mãe. O primeiro com um ar resoluto apesar de cansado, como que determinado a encarar o que viesse com um viço do qual já não dispunha. Ela, mais óbvia ainda. Papos debaixo dos olhos, que varriam o consultório como se procurassem uma pista de que afinal o seu filho não tinha ali nada que fazer. Não sabiam o que se passava, ou não queriam acreditar saber. Já estavam há alguns dias hospedados num hotel em Lisboa, percorrendo as várias consultas nos vários Hospitais a que tinham encaminhado a família. Imagino que na esperança de uma delas poder acabar com a digressão antes desta última paragem. Ele era, na sua tenra idade, 
o melhor dos seus pais: forte como ele, doce nos olhos como ela. E não fazia a mais pálida ideia do porquê de ter no lado do pescoço um alto do tamanho de um limão. Seguindo as indicações da Doutora, olhei para ele, ouvi o seu peito, palpei o seu alto. Fiz conversa, descobri que era guarda-redes, e para mais Benfiquista. Regozijámo-nos com o golo milagroso do nosso guarda-redes ao Real Madrid. Nunca esquecerei o riso que partilhámos enquanto as polpas dos meus dedos mediam uma coisa que não se deveria medir nunca numa criança. Enquanto atrás de nós a Doutora dizia aos seus pais algo que não se deveria
dizer nunca aos pais de uma criança. Segui o exemplo deles, e mantive a minha compostura. No final, despedi-me da família, e desejei ao rapaz boa sorte nos seus próximos jogos. Quis dizer várias coisas, mas tentei pensar sobretudo em jogos de futebol. Nunca mais soube dele.

Conheci O Mistério no Hospital Curry Cabral. Estava no semestre de Especialidades Médicas do meu quinto ano, a fazer a rotação de Nefrologia. Fui encarregada de lhe colher a história clínica, a apresentar no final do estágio. No quarto em que estava hospedado nesse internamento havia três doentes, cada um com a sua cama, mesinha e cadeirão, separados por cortinas para dar a sensação de alguma privacidade. Na primeira manhã em que falei
com ele, comecei como de costume de pé. No entanto, com o desenvolver da sua malfadada história, senti-me compelida a pedir-lhe licença para me sentar no cadeirão
enquanto conversávamos. Os nossos olhos ficaram mais perto, falámos mais baixo, como me pareceu indicado para aquilo que me confiava. Os seus olhos humedeciam-se enquanto me falava não só dos que ao longo de sete décadas haviam pecado contra ele, mas também dos seus próprios pecados – e de como tudo isso em conjunto o levara à sua atual desgraça. <A minha vida é um mistério>, dizia-me. <Tenho esperança de não passar desta aventura>.
Não sei o porquê de ter confidenciado em mim. E dizia-me <Tem de me ajudar Doutora. Ajude-me Sra. Doutora>. Ele sabia que eu não era a sua Doutora. Senti-me honrada e
também um pouco receosa nas vestes do sacerdócio que me espera. Como era meu dever, reportei aos meus superiores que ele tinha esta ideia em mente, mas pareceu-me um desabafo de um homem que já não sabia como aguentar mais um calvário. Já tinha tudo aquilo de que precisava para a história clínica, mas até ao final dessas semanas fui cumprimentá-lo todas as manhãs. Perguntava-lhe como tinha passado a noite. Cheguei a conhecer a esposa e a filha. Olhava-me sempre com cumplicidade, e eu retornava-a. Não falámos novamente no que já faláramos, mas todos os dias me agradecia profusamente. Eu não tinha feito nada, a não ser conhecê-lo. Só posso esperar que isso tenha feito bem. Nunca mais soube dele.

Autoria: Mariana Cardona