Edições Especiais

When I remember this life

I hope death is a songplayingat the end of a movie.A handful of piano notes,a maternal voice singing in a tongueyou never came to know yetunderstand fully.It speaks of an eternalbeautyin the temporary.A sound like a cherry blossomascending downwardto become the watercolour groundfrom which a new tree will sprout. Autoria: Miguel

3.

Porque é que eu quero beijar as cobras,e as maçãs só olho para elas?Se o meu instinto é meu,então não me trai.Autoria: Mariana Cardona

On smoking

I light another cigarette.How I used to hate the smellwhen I was brighter.I still do — in a way.But sometimes I fixatemy gaze on the strugglingred flame fighting for freedomfrom the black tar and stifling wrap.Only to erase, dead and beaten,into grey acid fog, dark cold ash.And I can kind of see myselfdragging through Edenin…

Carta em Avião de Papel

Meu amigo,Amigo que me sobrevive,São quatro da manhã, quase verão, quase Natal. É tempo das crianças ofegantes, é tempo das cartas a um Pai que, tendo Maiúsculas de Coca Cola, não é, menos do que O Outro, objeto de fés e de festas. É tempo dos desejos, mas eu não desejo nada e não escrevo…

Nota de pesar

Como eu gostava de acabar Como uma nota de pesar. Com um fim ambiguamente misterioso, Que deixasse os demais que sofrem a duvidar, Com o meu escalpe esborrachado num pavimento, Num plano agreste, irregular, Banhado no sangue dum sucesso Que não se pode mostrar. Assim quereria eu acabar, Numa nota de pesar. Com o luto…

Pessoal Vol. 3

Conheci O Goleiro no IPO de Lisboa. Estava no estágio de Oncologia do meu 5º ano, no dia dedicado à Oncologia Pediátrica. Nessa manhã tinha tentado preparar-me, repetindo para comigo mesma algumas noções teóricas. <<O prognóstico da maior parte dos cancros é muito melhor nas crianças>>, <<As crianças são mais fortes do que nós, sobretudo…

Lisboa, cidade jardim

Lisboa, cidade jardimCalma e serena no seu acordarRapidamente se transforma em frenesimNo frenético movimento do trabalharMetros, autocarros, pessoasFatos, gravatas, trajes e pastasTelefonemas, cafés, cigarrosJanelas, prédios e o sol…Bate na minha cabeça, Quente, mas ternurentoCéu aberto e a promessaDe um dia não cinzento.Vêem-se poetas e escritoresContabilistas, juízes, doutores.Todos ocupados, cada um com o seu pensarCada um…

carta 2/7

Amo-te e quero te ver mudar perante os meus olhos, estar contigo onde fores parar. Amo-te, Pedra. E sinto-me confortável quando o digo, nunca ninguém foi tão digno de tal declaração, só em livros e histórias imaginei um amor tão natural.A frequência dessas impressões aumentou. Apaixonei-me por ti, ou tomei consciência desse estado, na semana…

 Early Autumn Spring

I want to rest under the gliding shadow of this canopy of flowing gold leaves and their shining silver streaks. I want to melt into the lush meadows glowing under that canopy. You told me they used to be bright green and were now fading into a pale hazel tint with little almond grains. I…

três letras e um til

Quando nascemos, os olhos são cinzentos, a cor só vem quando de dias saem meses. A visão é de turva névoa, com alcance de régua, só enxerga o rosto dela. Esse nós víamos bem, era a face da nossa Terra. Se nos pousasse e fosse embora, era tristeza quase cega.O seu sorriso ensinou-me que ser…

Diário de um dia apagado

De caule ereto e cansadoDe olho ao trânsito longeTodos os dias passam serenos, mortos.Mas hoje acordei energizada.Uma brisa diferente me desfolhou.Há tanta gente na rua!Curiosa, perguntei às outras o que de tão peculiar se passara.”Ainda não ouviste falar? Até em Espanha está assim!””E decidiram vir todos para a rua, dar-nos alimento”Mas que raio? Resposta não…

A poesia está na rua

Foi em tempos verde seiva asecura outonal na tua mão.Restolho pilhado morto compressofoi fluxo, gesto — foi acção.Cobres-me crude a traços de gesso,deitas-me fogo, faço-me lume.Será calor… um novo começo?Ou o estertor da luz no negrume?Sorves-me o peito, dissolves-me em névoa,torno-me cinzas de alento desfeitoe somem no vento velhas promessasde incêndio bala turbilhão. Tomeibeleza quimera…

quando nada brilha tudo arde

quando nada brilhaencontra-se maneira de fazer com que tudo arda;o coração esfriado sente em si a alma exanguede todo o sentimento que não é dor;passa-se uma vida à procura de felicidade como aquelade que só se lembra as cores e não contornos de tela;a vida é demasiado real para se viver assime houve dias em…

Entrevista clínica

“Não tenho frio.Se ficar com frio aproximo-nos do Sol.”Quem o diz é A., esquizofrénico.Acredita que controla o clima.“Acredito não, controlo!”Insurge-se se se usa a palavra acredita,torna-se agressivo.É inverno e A. usa apenas opijama hospitalar, recusa vestir o robe.Voltou agora do pátio ao internamento para a entrevista.Não parece ter frio, de facto.A. sai.“Piorou imenso coitado.”(Esta frase…

Resposta #1

Estaremos tão longe como dizes?O nosso elo é longo e calmoPorque convertes palavra em palmoSe outrora já vivemos felizes?Conheceste as minhas cicatrizesDelas cuidaste com apreço almo,Sabes que só contra ti me acalmoNão sei p’lo que anseias, como dizes.Se o céu se desfizer em tornadosQue façam voar os tetos das casasMeus afetos não serão alterados.Se Lisboa…

Poemas sobre a Mentira — Sarau XXXII

Hoje, sei que se me esgotaram as palavras do excesso em que foram certas.E gero-me enfim, cravos sobre,no vil sonho de uns lábios perto,esses que mas parcas renunciam, de um amor pobre,o verso despido, mas não aberto.Muda me fere a mísera boca,da rubra égide em dolo ungida,a diluta Vénus que me do seio evocadas aias…

Ethel Cain, LAV 9/11/2025

Primeiro a negrura,necessária para o contraste.Depois uma arte que nelase propaga madurapreenchendo firmamento vazio.E uma mão, a minha, procurandono alto o som e a formaque se tornam reais porque escutoe se modificam em mim.Talvez deixando-me transfixar ressoandoesta figura que reverbera não como som,não como corpo,mas tessitura de luz,me possa transfigurar não somentereflexo da forma, mas…

Os Idiotas

Que idiotas são os sonhosPalermas, estúpidos, ignorantesOusados, rebeldes e fanfarrõesJulgam ter o mundo na ponta de um dedoou na palma duma imaginaçãoChicos Espertos e Zés NinguémQue criam mundos, histórias, poetasSem mapas, sem letras, sem alma Aos que sonham, boa viagemAos que não sonham, os meus pêsames. Autoria: Pê Assis

Nos teus olhos escrever o sonho

Nos teus olhos escrever o sonho Com que me guio no alto mar ondulante.Sou náufrago nos teus lábios tortuososPirata de sentimentos alheios.Na tua pele desenho riosAfluentes do meu sentir.Da tua língua emanam fiosCom que teço meu viver.Tuas asas de imaginação pereneSão o castelo do meu futuro,Que de areia em granito se tornamEm palavras murmuradas ao…

Pessoal vol.2

Conheci O Estrangeiro no Hospital de São Francisco Xavier. Estava no estágio de Pediatria do meu quinto ano. Dizer que o conheci poderá ser um excesso, não chegámos a falar, mas conheci pelo menos aquele momento da sua vida. Era um rapaz novo, teria os seus 15 anos. Tinha vindo para Portugal com um tio,…

Pretos e espessos

Pretos e espessos são os fiosQue da minha mente emergemEferências sonhadoras, singelasOs sonhos depressa se esquecemOxalá os fios não se olvidem como elasNegra é a pele, rubros são os olhosSó as lágrimas de cor carecemNem um “eu” tem controlo de mimNem os pentes me obedecemSe eu pedir perdãoOs fios abrandam comigo?Se eu pedir perdãoEle entrança-se…

Dia da Mulher: por Palavras

Dizia assim um ele para uma elaOh coitadinha da meninaNão pode tudo o que queria :(Mas pode sempre ficar calada :)Ou cortar o cabelo, empoderadaJá percebemos que aí está.(O que quer? Falta de chá!)Vamos, vá brincar lá para foraFalta pouco para a sua horaOh calma, que ela não vai(Querem ver que é filha do pai)Óculos…

O sono do elefante

No pátio antigo, a glória ardente,Passa em silêncio, memória lenta,Onde gigantes, de olhar valente,São já imagens que o tempo inventa.Salas cheias, de vozes ecoantes,Erguem ao céu risos triunfais,Sonhos grandes, passos de gigantes,Que o vento leva, não voltam mais.Entre amigos, tudo era infinito,No auge eterno de uma ilusão,Mas tudo é pó, breve e restrito,Que o tempo…

Elegia

Olha como és bela nesta fotografia.Que lindo o ímpeto bronze anteuma cortina que desce lentamenteperpetuando a certeza do teu corpo.Alguém que te não conhecesse na alturatalvez não te consiga distinguir na multidão,mas que nítida esta ausência de linhaste desenha como eras realmente.Olha a rua onde vivemos florida a sépiade rostos que há muito não lá…

Pessoal

Conheci O Mentiroso no Hospital de São José. Estava no semestre de Medicina Interna do meu terceiro ano, e a tutora encarregou-nos de lhe colher história. Não tomem o cognome que eu e a minha colega (hoje querida amiga) lhe demos como injúria. Na verdade, surgiu nos por pura admiração à insistência do homem em…

Esquizoinfernia

Estou sozinho em casa com eles todos. Sou cheio de amigos, simpaticomimético e de modesta simpatia. Eles vivem dentro (fundo), paralelogramamente, tenebrosos, escabrosos. Saem-me das raízes dos cabelos como chupa-chupas, pop, pop, pop, lollipopping, escandalosos. Sou estátua num circo, estão todos a rir-se de mim e rodopiam-me, repudiam-me e tamborilam-me como uma pandeireta, percussão cardíaca,…

A Cara do Amor

Sabes que quero para ti tudo o que sonhas alcançarContigo fui feliz, mais do que podes imaginarMasNão é por estar partido que o coração paraVais voltar a encontrar o amor,Só não serei eu a sua caraSabes,A vida nem sempre anda para a frenteTalvez nos tenhamos encontradoPor estarmos ambos perdidosNo mesmo mar de gente…Talvez tenhamos parado…

Balada do Sr. Orlando

“Sinto-me sujo, tomo vinte banhos por dia e sinto-me sujo”. Dizia sempre o impecavelmente asseado Sr. Orlando. Afogado num fervor de Sísifo tentava lavar em vão o vírus inodoro que havia contraído há quarenta anos. Pobre Sr. Orlando… talvez um dia inventem algum gel que limpe o ar em seu redor do cheiro acre, nauseabundo…

Artifício

A vista precede o estaloA cor se estilhaça de estrondoatraso, uma Primavera se escutaante cinzas cáusticas em teatroAbriu-se flor em meio de florestaà algazarra sobre o Tejo de Santo AmaroA pintura de fumo em efervescênciaPairando ardentia desta defunta matériaO som granuladocomo que se um cigarro aspirasseVem em aviso ordenadodo nascimento breve de perpétuaOxalá o esboçar…

À lareira

Quatro camadas de roupas e meias grossas, mas a minha alma arde pela cadeira baixa em frente à lareira, aquela que ladeia o lugar da minha avó.Todos sabem que um par de cadeiras, uma lareira e uma avó constituem a mais eficaz das máquinas do tempo, cujo único entrave é limitar-se ao passado. Sento-me e…

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